No próximo sábado (18), o público carioca passará a ter acesso à uma das mostras de arte mais polêmicas dos últimos tempos.

As Cavalariças da Escola de Artes Visuais (EAV), do Parque Laje, no Rio de Janeiro, abrem suas portas para quem está curioso para ver as obras da exposição ''Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira'', fechada às pressas durante sua exibição no espaço Santander Cultural, na cidade de Porto Alegre (RS), após receber duras críticas de grupos liderados pelo Movimento Brasil Livre (MBL).

A mostra foi acusada de fazer apologia à pedofilia e zoofilia, além de ser apontada como um desrespeito à religião católica, uma vez que algumas de suas obras faziam referência a ícones religiosos, colocados em contextos considerados ''profanos''.

Um mês após ser encerrada precocemente em Porto Alegre, a mostra foi vetada no Rio de Janeiro. O prefeito da cidade, Marcelo Crivella, declarou que não era a favor de levar uma exposição contendo ''pedofilia e zoofilia'' ao Museu de Arte do Rio (MAR), e completou sua fala com um trocadilho: ''Só se for no fundo do mar''.

Foi através da maior campanha de financiamento coletivo brasileira que a remontagem da Queermuseu no EAV tornou-se possível. Foram mais de R$ 1 milhão captados de cerca de 1.700 pessoas. A campanha foi possível graças a doação de obras de cerca de 70 artistas, que foram vendidas e convertidas em recursos financeiros, além da venda de ingressos para um show de Caetano Veloso.

Para o curador da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, o veto a mostra começou a partir de uma iniciativa muito específica, iniciada pelo MBL, que acabou criando uma ''narrativa falsa'' sobre o conteúdo da exposição.

Para ele, isso que as pessoas chamam de ''polêmica'' é, na verdade, fruto das falsas interpretações de alguns grupos específicos.

O curador acredita que, agora que a exposição está novamente em exibição, caberá ao público julgá-la com seus próprios olhos, e que a discussão a respeito da mesma poderá ser restituída. Fidelis afirma que o processo de rejeição e remontagem da mostra foi uma luta em favor das liberdades individuais.

Kim Kataguiri, um dos líderes do Movimento Brasil Livre, afirmou a BBC News Brasil que o MBL não está contra o direito à liberdade de expressão e sim contra o mau uso do dinheiro público para a viabilização de algo que, segundo ele, ''não representa a maior parte dos valores da sociedade''.

Onda de protestos fez exposição ser fechada mais cedo

A primeira exibição da mostra ''Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira'' que teve lugar no Santander Cultural da cidade de Porto Alegre estreou no dia 15 de agosto de 2017 e estava prevista para ficar em cartaz até o dia 8 de outubro do mesmo ano.

A exposição recebeu R$ 800 mil de financiamento por isenção fiscal, através da Lei Rouanet; cerca de apenas um mês depois de sua abertura - pelos cálculos do curador, dois dias e 4 horas após uma onda de protestos contra ela tomarem conta das redes sociais - a Queermuseu foi fechada às pressas acusada de promover a pedofilia, a zoofilia e a blasfêmia. O Movimento Brasil Livre (MBL) liderava as manifestações contra a mostra.

Pressionado, o Santander Cultural optou pelo fechamento da mostra [VIDEO] e declarou que entendia que algumas obras poderiam ser ''desrespeitosas'' para algumas pessoas, crenças ou símbolos e que isso não estava de acordo com sua visão de mundo.

Alguns dias depois, o Ministério Público do Rio Grande do Sul concluiu que não havia nenhum tipo de apologia ou incentivo a pedofilia nas obras e recomendou que o espaço cultural do banco Santander reabrisse a mostra. O Santander Cultural, no entanto, não voltou atrás em sua decisão.