Quem tem filhos e assina canais com programação infantil já deve ter percebido a enxurrada de desenhos brasileiros que estão invadindo a telinha. Graças a leis de incentivo à produção e concursos da Ancine (Agência Nacional do Cinema), muitas produções que começaram pequenas já se firmaram, ganharam novas temporadas e estão ganhando mais fãs do que muitos enlatados.

Muitos pais concordam, por exemplo, que Show da Luna é melhor que Peppa Pig. Enquanto a porquinha britânica é mimada, respondona, tem hábitos de consumismo e é competitiva com o irmão mais novo, Luna é mais simples, sempre em harmonia com os pais e avós, procura saber como as coisas funcionam em vez de ficar parada no videogame, é parceira do irmão Júpiter nas aventuras de faz de conta e brincadeiras no quintal, pega fruta do pé e ajuda na horta.

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‘Luna’ X ‘Peppa’

A comparação é inevitável para quem tem filhos pequenos. Algumas mães afirmam evitar Peppa em casa por ter uma filha mais velha e um filho mais novo, pois a porquinha humilha o irmão George.

Mas em Luna isso não acontece. Sim, o desenho brasileiro é politicamente correto, mas sem ser chato e maçante.

As crianças têm corpos naturais para as idades, os pais são magros, os avós proativos. Diferente da velha imposição de legumes nos desenhos, em vez de "você tem que comer brócolis", o desenho tem várias cenas com pomares, frutas, horta, animais e coisas para fazer em casa, como queijo artesanal e consertar o velho relógio.

Não é de hoje que os desenhos brasileiros estão na trilha do sucesso. Apesar do reconhecimento nacional, atingir o mercado lá fora é bem mais difícil. Ziraldo, por exemplo, fez muito sucesso com os quadrinhos da Turma do Pererê e Menino Maluquinho, mas nunca arriscou tentar a área televisiva. Politizado, preferiu continuar no ambiente cartunista dos jornais.

Turma da Mônica

Já seu contemporâneo Mauricio de Sousa, da querida Turma da Mônica, trilhou um caminho diferente.

Seu estúdio se firmou há 50 anos, ajudou a criar e alfabetizar quatro gerações de leitores dos gibis e serviu de inspiração e coragem para novos desenhistas trilharem o mesmo caminho.

Porém, para chegar lá, a turminha foi sobrevivendo e se adaptando aos novos tempos, passou pela ditadura, viu a internet nascer e está sempre antenada com as redes sociais, gerando, inclusive, memes e virais. Para chegar ao patamar televisivo e alcançar um quadro fixo nos principais canais por assinatura, a Turma da Mônica teve de se adaptar aos novos tempos.

Tempos mais certinhos

Isso porque quando foi criada, os tempos eram outros, as crianças entravam mais tarde no colégio, as mães eram donas de casa e todos os vícios de criação eram tidos como naturais. Cebolinha e Cascão já não apanham de chinelo, Nhô Lau não persegue mais Chico Bento com uma espingarda, hoje as mães das crianças trabalham e elas frequentam a escola. A editora Panini, que comprou a marca, exigiu mudanças politicamente corretas para levar os quadrinhos para a TV, mesmo mantendo os desenhos mais antigos no acervo da grade.

A atitude acertada foi fundamental para expandir ainda mais a empresa, com a criação de Turma da Mônica Jovem, voltada para adolescentes, e Monica Toy, com histórias curtinhas para todas as idades.

Irmão do Jorel

Entre os desenhos novos, destaque para Irmão do Jorel como uma grata surpresa. O desenho é uma crônica da vida comum nas famílias, e o principal personagem nem é o Jorel, mas o irmãozinho caçula, fofo, mas que ninguém sabe o nome, pois em nenhum capítulo ele consegue dizer como se chama. Quando vai abrir a boca sempre tem alguém para dizer "você não é o irmão do Jorel?" e o menino fica no vácuo.

Jorel é o típico filho que deu certo, orgulho dos pais, popular, famosinho com fãs apaixonadas. A família é grande, com três filhos e duas avós e ninguém dá muita atenção para o caçula, mas, até por isso mesmo, os telespectadores querem pegar aquele menininho fofo e perguntar, afinal, qual é o nome do irmão do Jorel.

Outros destaques brazucas

A esteira de desenhos novos não para de crescer nas grades de programação, e é impressionante o esmero e criatividade nos roteiros. Tromba-Trem, Carrapatos e Catapultas, Papaya Bull, Peixonauta e Historietas Assombradas para Crianças Assombradas são alguns dos destaques.

Situações cotidianas e globais são representadas o tempo todo nos desenhos e muito de vez em quando deixam escapar uma brasilidade. Em Tromba-Trem já apareceu o termo "tecnobrega" e no especial de natal de Luna foi destacado o fato de não ter neve, mas, sim, muito calor aqui para esperar Papai Noel.