Em 1966, a Inglaterra dava as cartas para o mundo. A modelo Twiggy alcançara o auge da fama como a primeira Top Model, sendo eleita a "Mulher Britânica do Ano". A Seleção Inglesa [VIDEO] conquistava o Mundial de Futebol em pleno estádio de Wembley. Os Rolling Stones já eram os Rolling Stones, disputando palmo a palmo com os Beatles nas paradas de sucesso, tornando-se os dois supergrupos de rock da era moderna.

Mas, definitivamente, 1966 foi o ano mais difícil da carreira dos rapazes de Liverpool, apesar de que suas musicalidades tornavam-se cada vez mais criativas. Numa entrevista com a jornalista britânica Maureen Cleave - com quem supostamente tivera um caso - John Lennon [VIDEO] declarava a polêmica frase "Os Beatles são mais populares do que Jesus Cristo".

Publicada na revista americana "Datebook" em agosto, as consequências foram as piores possíveis.

A última turnê

Tudo que os Beatles diziam publicamente repercutia muito, e se fosse polêmico, consistia nos efeitos colaterais iguais ao de um furacão. Àquela altura, prestes a embarcar para os Estados Unidos na última turnê com os Beatles, Lennon não tinha ideia do tsunami que sua frase geraria. Radialistas americanos, indignados com a heresia, além de banirem as músicas do conjunto em todo território nacional, promoveram uma "fogueira beatle", na qual as pessoas trariam fotografias, revistas, discos e todos os itens de memorabilia dos Beatles, que seriam queimados em praça pública como protesto. Membros da famigerada Ku Klux Klan queriam queimá-los vivos como nos rituais das cruzes de madeira.

Ameaças de morte, sons de fogos de artifícios e invasões nos palcos assustavam John, Paul, George e Ringo. Não havia clima para os Beatles serem os Beatles.

Antes já haviam enfrentado a fúria dos japoneses pela audácia de se apresentarem no Budokan, templo religioso das artes marciais. Depois, nas Filipinas, ao recusarem o convite para jantar oferecido pelo casal ditador Marcos e Imelda, foram extorquidos e agredidos de todas as formas possíveis, agradecendo aos céus por terem saído vivos do país. Teriam os Rolling Stones, famosos pelas suas irreverências desenfreadas, coragem para tanto?

Aconselhado pelo empresário Brian Epstein a pedir desculpas em público, visando salvar a turnê americana, a princípio John recusou-se solenemente. Mas ao chegar em Chicago, no dia 11 de agosto, acabou desculpando-se à sua maneira na coletiva de imprensa.

Algo inédito foi o fato de não lotarem totalmente os locais de apresentação. E, àquela altura, os Beatles já estavam saturados das turnês. Não conseguiam tocar como desejavam, devido à baixa tecnologia de áudio na época, e como o próprio John disse, "podiam colocar quatro bonecos no palco, pois o público só queria gritar e não ouvir nossa Música."

Entre ultrajados e feridos, no dia 29 de agosto fizeram sua última apresentação num palco em San Francisco.

Um fã mais afoito pendurou na arquibancada do Candlestick Park a faixa "Lennon Saves!", ou seja, "Lennon Salva!", uma irreverente resposta à polêmica referente a Jesus Cristo.

A criatividade evoluía

Nada disso afetou sua musicalidade. Seu sétimo álbum de estúdio, "Revolver", lançado em 5 de agosto de 1966, foi considerado um dos melhores da banda, e um dos melhores de todos os tempos. Já não tinham mais como objetivo comporem canções para os fãs dançarem, e sim que ouvissem e viajassem ao som de sua nova proposta musical. Era John e suas viagens de drogas em canções, um romântico Paul McCartney fantástico compositor de belíssimas baladas de amor, um George Harrison e suas incursões orientais alado pela cítara e Ringo a bordo de um submarino amarelo.

Durante as sessões de Revolver, os Beatles gravaram "Rain" e "Paperback Writer", dois rocks musculosos, explicando o novo caminho de suas carreiras.

Anos depois, foi subentendido que John quis dizer - "expressando-se erroneamente" - que as pessoas iam mais aos concertos dos Beatles do que às igrejas. Mas os Beatles ainda tinham muito a mostrar ao mundo, mais do que polêmicas. Em novembro do mesmo ano, iniciavam as gravações para a considerada obra-prima de sua discografia: o álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", lançado no ano seguinte, que faria, ao menos momentaneamente, colocar panos quentes na questão.