O ex-ministro da Economia de Cuba, José Luis Rodríguez, analisou as remodelações e reformas de mercado no Socialismo cubano. Para ele, os avanços sociais alcançados por seu país são um exemplo de que esse sistema não está fadado ao fracasso.

Em entrevista à rede de televisão RT, o economista traçou um pequeno balanço do histórico da economia cubana nas últimas décadas, cujos percalços levaram o governo a implementar reformas no sentido de abrir o país a investimentos estrangeiros.

A atualização do modelo econômico cubano, levada a cabo a partir de 2011, se deveu ao impacto negativo da crise mundial de 2008 e das constantes oscilações na balança comercial e na falta de liquidez.

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Havia três soluções a curto prazo que o governo estava buscando, disse Rodríguez: eliminar o déficit na balança comercial, acabar com os obstáculos que impedem o crescimento da produtividade e assegurar a infraestrutura necessária para o desenvolvimento do país.

“Essa é uma mudança que é menos dramática que a do período especial, mas é muito mais complicada porque implica transformar quase tudo dentro da economia, inclusive dentro dos aspectos sociais”, afirmou.

Período especial e atualização

O chamado “período especial” foi um espaço de tempo de cerca de dez anos no qual a economia de Cuba quase desmoronou devido ao colapso da União Soviética e da maioria dos países socialistas que tinham forte comércio com a ilha caribenha e a intensificação do bloqueio econômico imposto pelos EUA em 1962.

Além disso, os frequentes desastres naturais como furacões ajudaram a piorar o cenário, que parecia catastrófico.

Durante esse período, explicou Rodríguez, a economia do país estava focada em dois objetivos principais: resistir ao impacto da crise ao menor custo social possível e reinserir a economia cubana nas novas condições econômicas e geopolíticas internacionais. Esse período terminou por volta de 2004, quando Cuba recuperou o Produto Interno Bruto (PIB) de 1989, embora a falta de liquidez, a renda da população e a infraestrutura fossem um problema.

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Com a atualização do socialismo cubano iniciada em 2011, “nós entramos neste processo de mudança, de nova política econômica, sem ter superado muitos problemas que ainda vêm do período especial”, declarou o ex-ministro.

Mercado no socialismo

Segundo ele, apesar de o governo cubano ter reconhecido a existência do mercado dentro do sistema socialista do país como uma realidade, existe a problemática de como regulá-lo para que esteja ao serviço do sistema.

Ele defendeu a utilização de mecanismos que se encontram tradicionalmente em um sistema capitalista para desenvolver o socialismo e respondeu aos discursos que pregam a suposta ineficiência do sistema socialista:

“Tudo depende do que você quer medir.

Se você for medir o tema estritamente econômico e da microeconomia, efetivamente há uma série de elementos desenvolvidos na economia capitalista que propiciaram incrementos na eficiência, na produtividade, nos lucros. Essa é uma parte do problema. A outra é em que medida esses crescimentos, esses resultados de uma empresa capitalista repercutem no desenvolvimento da sociedade. E aí há uma diferença fundamental”, analisou.

E continuou: “o socialismo não é um regime fracassado, é um regime que está baseado em uma lógica que, na minha opinião, é indiscutível que, com uma planificação socialmente consensuada dos recursos e sua utilização pode-se alcançar melhores resultados econômicos e sociais.

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O socialismo conquistou no [âmbito] social efetivamente uma série de avanços, Cuba mesmo os conquistou, ainda que seja uma economia subdesenvolvida.”

O ex-vice-presidente do Conselho de Ministros de Cuba ainda justificou a atualização e reformas econômicas em seu país, lembrando do cuidado que o governo deve tomar para não sofrer o mesmo destino da antiga União Soviética.

“As soluções do mercado têm que se enquadrar muito claramente na construção socialista, porque existe o perigo – e as reformas econômicas que levaram ao desaparecimento da URSS demonstraram isso – de que essa tese de socialismo de mercado possa terminar na permanência do mercado e no desaparecimento do socialismo”, concluiu.