“Alô, Léo, é o Pep. Preciso lhe mostrar uma coisa muito importante. Venha agora!”. Em uma ligação de poucos minutos, Pep Guardiola, então comandante do Barcelona, chamava em sua sala o seu melhor jogador na véspera de um clássico contra o Real Madrid, líder, àquela altura, de forma absoluta da Liga Espanhola na temporada 2008/2009. Messi, do alto dos seus 21 anos, obediente, atendeu o chamado do mestre e recebeu uma instrução que serviria, ao longos dos anos, para solidificar a sua carreira como um dos melhores de todos os tempos.

O horário já marcava dez horas da noite, mas, para Pep, pouco importava. Era comum ficar até tarde concentrado em sua sala no centro de treinamento estudando os adversários, analisando vídeos e bolando novas estratégias. Assim que Messi chegou, Guardiola lhe apresentou a função de “falso 9”. No dia seguinte, em pleno Santiago Bernabeu, o argentino teria a missão de jogar em um espaço imaginário entre os volantes e os zagueiros rivais.

Depois de tanto analisar os madrilenhos, Pep entendeu que, dessa forma, poderia surpreendê-los. O 6x2 com show de Messi só serviu para corroborar sua estratégia. Ninguém mais parou o Barcelona naquela temporada – e poucos conseguiram nos anos seguintes.

O episódio ilustra de forma precisa um dos traços mais marcantes da personalidade de Pep: o perfeccionismo. Em busca da perfeição, mirando o mais alto nível de jogo possível, o técnico criou uma nova posição justamente para o seu principal jogador ocupar.

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Ousou e colheu os frutos. A passagem é apenas uma entre tantas outras muito bem escritas pelo jornalista espanhol Martí Perarnau, que, como nenhum outro, teve a chance de conhecer Pep Guardiola como Pep Guardiola é. Após conviver durante um ano dentro da rotina do Bayern de Munique, Perarnau transformou a temporada de 2013/2014 dos alemães em um livro imperdível para todos os amantes do Futebol, batizado, no Brasil, de Guardiola Confidencial.

É no Bayern, aliás, que Pep surpreende os admiradores do “futebol total” e alega odiar o chamado tiki-taka – estilo de jogo que consiste em superioridade na posse de bola, domínio de território e intensa troca de passes. O modelo era uma das marcas do vitorioso Barcelona de Guardiola entre 2008 e 2012 e foi replicado pela seleção da Espanha, bicampeã da Europa e campeã mundial em 2010. Mesmo assim, o tiki-taka era palavra proibida na Alemanha e Pep garantia não ter levado na bagagem.

“Odeio isso de passar a bola só por passar. Isso é um lixo e não tem efeito nenhum. Sem propósito algum. É preciso tocar a bola com o objetivo claro, que é chegar ao gol do rival. Odeio o tiki-taka. Isto significa passar a bola sem intenção. Não acreditem no que dizem as pessoas. O Barcelona não fazia isso! É algo completamente inventado”, vociferou Pep.

E o ódio a esse modelo de jogo parece ter perseguido Pep.

Ainda na fase de grupos da Champions League da temporada 2013/2014, o Bayern realizou uma grande partida e venceu com autoridade o Manchester City, fora de casa. Na volta à Alemanha, Guardiola resolveu comprar um jornal para se distrair. Na editoria de esportes, deparou-se com uma crônica escrita pelo lendário ex-jogador alemão Lotthar Matthäus com o seguinte título: “O tiki-taka chegou”. No instante seguinte, o jornal já estava no lixo.

Impulsivo, perfeccionista e sincero. Centrado, detalhista e vitorioso. Perarnau ilustra a pluralidade de Guardiola com a habilidade dos mais precisos escritores. Como Pep mesmo disse: “escreva o que quiser e critique o que quiser”. Mas há como criticar quem vence 20 títulos em somente dois clubes na carreira e assina com as próprias mãos o capítulo inicial da revolução do futebol moderno? Difícil.

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