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Bola pro mato que o jogo é de campeonato! Era divertida a época em que ouvi esta frase pela primeira vez, jogada ao ar, de modo desleixado, assim como o fazia o craque do time quando quase que sem pensar, com um toque de letra excluía o adversário da jogada, e honrava os nobres espectadores com um lance plástico, inusitado. Mas, quiséramos nós que o Futebol fosse tão “simplista” como esta frase quase nos faz acreditar. Não é hoje. E não era naquela época das quadras descobertas e campos de terra. Tempo em que o Brasil produzia craques aos borbotões. Éramos bons em sermos os melhores. Encantávamos, mesmo quando não lográvamos o título. Somos um povo inclinado para o esporte, talvez seja parte de nossa herança ancestral, a compleição física que nos compõe para correr, saltar, lançar.

Então aconteceu, e de repente não somos mais os únicos, na linha de chegada, temos companhia, de um lado e do outro, espremendo-nos, e nos empurrando para trás, já não somos mais tão bons. Os que ontem não tinham talento, hoje impingem-nos a humilhação. Andamos de cabeça baixa com saudades do menino que corria de pés descalços, saltava longe, driblava a fome e a miséria com tão esplendida perícia, que elas - fome e miséria, vencidas e abatidas por um moleque de pernas tortas - concediam a ele o dom da irreverência “vai Mané, vai ser garrincha na vida” e zombeteiro, o anjo de pernas tortas olhava para trás e sorria de volta.

Hoje, nossos craques não nascem mais, são produzidos pela indústria esportiva, pela mídia. Hoje, nossos craques são astros, possuem astronômicos salários, a vaidade dá o tom ao espetáculo, agora roteirizado, não cabem mais improvisos, não há espaço para as paixões.

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E, enquanto isso, absolutos nas arquibancadas, os torcedores continuam, insistem, fazem a festa. Ainda acreditam que verão, nas feições do menino, aquele que, nas esquinas da vida, protagonizava o mais puro e genuíno espetáculo, que caminhava pelas ruas estreitas sob o sol do entardecer, ouvindo o vento sussurrar “lá vai o menino rindo feliz”, ah, o pequeno guerreiro nem se dava conta que o fracasso o espreitava, e tentava em vão derrubá-lo. Ah moleque esquivo, garoto maltratado, abençoado, voa beija-flor, voa.

Os torcedores, meros mortais com suas caras incrédulas, aguardam ansiosos, dedicam-se a esperar pelo milagre, saudosos projetam no novo os seus velhos ídolos como se tivessem estado lá, como se também estivessem com saudades do nosso futebol.