A menina que andou descalça por quase um mês, porque teve seus chinelos roubados pelos meninos da Cidade de Deus - comunidade onde passou a infância – aprendeu na raça que precisava se defender para sobreviver. Para se impor, se tornou uma criança briguenta e agressiva. Através do Projeto Reação e com o judô, a pequena Rafaela Silva foi sendo disciplinada e se tornou um exemplo de sucesso para os meninos e meninas de sua comunidade.

Os pais (Sr. Luiz e D.

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Zenilda), sem muitos recursos financeiros, encontraram na associação de moradores a oportunidade de preencher o dia das duas filhas, com atividades que as manteriam longe de confusão. Rafaela, a caçula, escolheu o futebol e Raquel (a mais velha) optou pela dança, porém em comum a duas escolheram o Judô como segunda opção. Ao perceberem que tinham maior afinidade com o judô, focaram no espote (a irmã Raquel era mais dedicada).

Rafaela se empolgou para valer com o judô, quando viu a irmã mais velha viajar para fora do país para competir. Quando a irmã precisou interromper a carreira, por conta de uma gravidez, Rafaela manteve o foco e seguiu em frente no esporte.

Rafaela Silva, ganhadora da 1ª medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas do Rio.
Rafaela Silva, ganhadora da 1ª medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas do Rio.

Conquistou vitórias e ganhou patrocínios, mas não conseguiu escapar dos ataques racistas

Ao ser campeã no Mundial Júnior de 2008 e no Mundial Sênior de 2013, conquistou patrocinadores.

A atleta precisou superar alguns episódios desagradáveis, após chegar na seleção Brasileira. No entanto nenhum foi mais triste e desmotivador como o que passou nas Olimpíadas de 2012. Rafaela chegou como forte candidata: vice-campeã mundial e 4.° lugar no ranking.

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Porém, após uma manobra durante a luta, considerada “ilegal” pela arbitragem, ela foi desclassificada. Chorou desesperadamente, sem entender o porquê de uma punição tão rígida. O pior pesadelo da sua trajetória de sucesso.

Chegando no hotel, ao abrir as redes sociais em busca de consolo dos fãs, amigos e familiares, viu uma reação que a deixou estarrecida: sua conta do Twitter estava abarrotada de insultos racistas e críticas. Um dos comentários, deixados em seu perfil, dizia que ela era uma vergonha e que deveria estar na jaula, por ser uma macaca, e não nas Olimpíadas. Voltou para o Brasil, com depressão.

Ficava o tempo todo dentro de casa (com medo de ser hostilizada nas ruas) e parou de treinar. 

O retorno aos tatames e a grande virada

Com o apoio da família e acompanhamento psicológico, Rafaela foi retomando os treinos.

O resultado logo surgiu: foi campeã no Pan-americano de San José, em 2013. E, na mesma época, ao retornar para o país para competir no Rio de Janeiro, ganhou nas 5 lutas que participou, inclusive aplicando o mesmo golpe que a desclassificou nas Olimpíadas de 2012, consagrando-se a 1.ª brasileira campeã do mundo no judô.

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E de lá pra cá, foram só conquistas e foco na vitória. E a maior de todas, que ficará marcada na história do esporte brasileiro e mundial, é sua recém-conquistada medalha de ouro.

A 1.ª medalha de ouro das Olimpíadas do Brasil foi conquistada por uma mulher, negra e pobre, criada em uma das comunidades mais violentas do país, mas que tinha um sonho. Rafaela Silva, 24 anos, viu seus sonhos se transformarem em realidade ao conquistar o título "em casa".

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