A crise que se instalou no Morumbi na última semana após a trituração de mais um ídolo (Paulo Autuori e Muricy Ramalho também saíram pela porta dos fundos) e o acesso a zona da degola não se iniciou na era Leco. Ela é reflexo de anos de decisões políticas equivocadas e a falta de alternância no poder no clube da fé.

Porém, após a desastrosa gestão de Carlos Miguel Aidar (renunciou por denúncias de corrupção) a entrada de Carlos Augusto de Barros Silva, o Leco, deu um sopro de esperança por dias melhores, pois comparando com o estilo, declarações e atitudes nada elogiáveis do mandatário anterior, o histórico (nesse caso equivale a “longevo” apenas) cartola pareceu mais centrado e com sensibilidade futebolística um pouco mais apurada.

A escolha do argentino Edgardo Baúza como treinador da equipe mostrou-se escolha acertada por atender as necessidades de momento do clube nas quatro linhas: mais entrega em campo e extração de leite de pedra de um elenco enxuto.

No entanto, as últimas decisões do dirigente têm colocado o “Soberano” deposto à beira do precipício, revelando que a primeira impressão não passou de inocente ilusão: ele é mais do mesmo.

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Coincidência ou não, nas últimas temporadas os principais rivais alcançaram grandes feitos após a deposição de velhos dirigentes esportivos que por décadas governaram ditatorialmente as agremiações.

No Corinthians, saiu o núcleo de Alberto Dualib e ascendeu ao poder o grupo de Andrés Sanchez.

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A despeito dos indícios de maracutaia envolvendo a construção do Itaquerão e o gerenciamento questionável em relação às finanças do alvinegro, fato inegável que no tocante a futebol a nova cartolagem entende do assunto. Cristalizou uma identidade de jogo compatível com o gosto da torcida, contratando e bancando técnicos com visão de futebol afinada com o ideal proposto, e realizando contratações certeiras no âmbito esportivo.

O Palmeiras, após a retirada de Mustafá Contursi, fez uma excelente parceria para a reformulação de seu estádio, que atualmente irriga os cofres do Palestra com robusta bilheteria, e conseguiu captar investidores que reequilibraram as contas do clube e recheou o elenco de nomes de peso.

Já na Vila Belmiro, a troca por Marcelo Teixeira por Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, o Laor, rendeu o sonhado título da Libertadores após a revelação de uma safra de jogadores ilustres como Neymar e Ganso. O atual dirigente, Modesto Roma Júnior, tem o bom hábito de sustentar o cargo do técnico a revelia das habituais cornetas, garantindo desenvolvimento do trabalho e evitando grandes turbulências.

O São Paulo foi na contramão da nova tendência sacramentando a permanência de antigos dirigentes com os seus hábitos e princípios futebolísticos defasados. Leco é remanescente da gestão Juvenal Juvêncio que por mais de década está a frente do clube. Hoje, presenciamos um time sem identidade esportiva, com rotineiras trocas de técnico (7 nos últimos 3 anos), endividado e com estádio obsoleto.

Passou da hora de uma renovação política.

Politiqueiro populista: 10. Dirigente esportivo: 0

Outro sintoma da senilidade no executivo tricolor é a priorização da sustentação política, por meio de ações de boa receptividade popular, em detrimento do fortalecimento da equipe.

A contratação do zagueiro uruguaio Diego Lugano, se deu devido ao clamor da torcida supersticiosa e desesperada por nomes que milagrosamente revertessem à fase de seguidos fracassos. Por mais história que tenha no clube, senso de liderança e de ainda ter algum valor como defensor, jamais poderia ser contratado pelos valores acertados e jamais poderia ser encarado como solução do sistema defensivo. É voluntarioso e comprometido, mas velho e lento. O tempo passa para todos. Alguém levou a sério demais aquela história de “Dios”.

A compra do beque Maycon ocorreu em circunstância parecida. Vindo por empréstimo, teve um ótimo desempenho no início do trabalho, demonstrou garra, valentia e faro de gol em momentos decisivos. Caiu nas graças da torcida. Porém, é um zagueiro veterano com uma carreira de altos e baixos. Sua trajetória no clube português Porto, foi semelhante a que teve no São Paulo. Início entusiasmante, encerramento melancólico. Um investimento de risco. Os Portugueses aproveitaram a surpreendente oportunidade para cobrar uma fortuna. Leco pagou. O São Paulo pagou. A torcida também.

Outro cala a boca que Leco deu para torcida no afã que o deixassem em paz foi a contratação do maior ídolo da história do clube, Rogério Ceni. Recém-aposentado, jamais treinara nem equipe de futebol de botão, mas o seu perfil de profissional aplicado, capacidade analítica, articulação convincente e trajetória indiscutivelmente vencedora deu a convicção a arquibancada de que se tratava do nome ideal. Leco interrompeu o bom trabalho do decente Ricardo Gomes e atendeu o apelo da torcida.

Esperar grandes resultados de um treinador iniciante e com proposta de implantação de jogo ousada é no mínimo estupidez. Apesar de bons jogos esporádicos e sinais de que o time poderia engrenar a longo prazo, Leco cravou uma estaca em mais uma santidade são paulina tão logo teve seu nome apupado pelo torcedor descontente.

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É de causar assombro a falta de time do dirigente para vender atletas ao mercado europeu. Sem dúvida, os valores das transações são impactantes e tornam compreensíveis as vendas. No entanto, o que revolta o sofrido torcedor são paulino é a falta de planejamento para abrir mão de atletas em outro período que não seja o meio de temporada.

Em plena disputa do campeonato mais equilibrado do planeta.

Será que não compreende que, no caso do futebol brasileiro, o mais adequado é realizar reformulação na equipe no término ou no começo da temporada, onde a comissão técnica pode realizar um planejamento em longo prazo com o elenco definido?

Como pode exigir regularidade de um técnico que a todo instante tem que redesenhar inesperadamente esquemas táticos? Por que não consegue selar acordos para ceder atletas no fim da temporada como sabiamente fez o Palmeiras com Gabriel Jesus? Acaso não tem ambição esportiva?

É inércia demais.

E o caso “Watergate” Aidar?

A falta de transparência da gestão Leco é gritante. Ficou-se de apurar as denúncias de corrupção e desvio de dinheiro, como no nebuloso caso da negociação do jogador Iago Maidana, do período de Carlos Miguel Aidar no poder do São Paulo, praticamente comprovadas com a gravação de áudio realizada pelo ex-vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Ribeiro (que chegou até desferir um soco em Aidar). Mas a única ação realizada foi a expulsão dos dirigentes do Conselho Deliberativo do clube.

O tamanho do desfalque nos cofres da instituição permanece um mistério porque a administração Leco se recusa a divulgar a proporção do estrago. Por que esse acobertamento?

Estranha também o fato de sempre se utilizar como desculpa pela constante venda de atletas a necessidade de sanar as contas do mais querido. Afinal, quais são os números exatos desse rombo no orçamento? O que se faz com a fortuna recebida com as negociações milionárias dos jogadores? Até quando irá durar a sangria no elenco?

Miopia, arrogância, cara de pau (fica a seu critério)

A última entrevista coletiva fornecida por Leco, em razão da demissão do técnico Rogério Ceni, beirou ao ridículo ao afirmar que forneceu todas as condições possíveis para um bom trabalho do ex-jogador. Também isentou a diretoria de culpa pelos maus resultados.

Um total absurdo.

É de se especular o que o motivou a dizer um disparate desses: extrema miopia futebolística? Arrogância incontrolável? Cinismo desconcertante?

Talvez um pouco de cada.

É bom lembrar que Leco era o cartola que vivia pedindo a cabeça de Muricy Ramalho nos tempos áureos do SPFC, por mera incompatibilidade de gênios e não por discordância sobre o estilo de jogo, o que seria até aceitável, e por questionar sobre os resultados na Libertadores, como se fosse um título sempre a mão dos melhores elencos ou investimentos.

É dele também a perora na qual chamou o jogador Ronaldo, a época camisa 9 do arquirrival Corinthians, de ex-jogador, estimulando desempenho fenomenal do atacante contra o time do Morumbi. Recebeu respostas irônicas tanto de atleta, como do treinador da equipe rival, Mano Menezes, que agradeceu pelo “incentivo maravilhoso”.

Diante dessa realidade, fica fácil compreender agora o porquê da atitude do falecido Juvenal Juvêncio de preteri-lo como o seu sucessor, embora tenha errado ao tentar acertar: decidiu escolher Carlos Miguel.

Definitivamente, torcer para o São Paulo não tem sido uma moleza...