O retorno da Alfa Romeo à Fórmula 1, a partir do ano que vem, como um mero nome estampado no monoposto da insolvente Sauber, criou um verdadeiro frenesi na imprensa “especializada”. Bom, a primeira coisa que o leitor deve saber, para não cair no abismo da imbecilização da mídia tradicional, é que a manobra não passa de um golpe publicitário, afinal, a equipe suíça já usa motores Ferrari, desde 2010, período em que coleciona seus piores resultados na categoria máxima do automobilismo mundial. Na prática, tudo ficará como está: a marca de Modena seguirá fornecendo propulsores para o time, só que, ao invés de carimbar seu próprio nome na carenagem do carro, vai emprestar este prestigioso espaço para a coirmã – para quem não sabe, a Ferrari nasceu da Alfa Romeo, mas esta história nós contaremos no final do texto.

O artifício tem um claro objetivo: livrar a Ferrari da imagem negativa que advém do péssimo desempenho da Sauber, nos últimos oito anos, criando um factoide para os jornalistas empurrarem goela abaixo do leitor menos informado.

Portanto, não se deixe enganar: a Alfa Romeo não está retornando à F1 como construtor, nem vai fornecer motores para a Sauber, que inclusive adotará seu prenome, a partir de 2018. Na realidade, a Alfa Romeo-Sauber será uma espécie de segundo time da própria Ferrari que, com quatro carros no grid, terá maior poder de barganha com a Liberty Media – que comprou a Formula One Management, dona da F1, no final de 2016. Não é por acaso que tudo isso acontece no momento em que os direitos de transmissão do campeonato de 2018 serão revistos – e o dinheiro redistribuído – e a Ferrari corre o risco de perder seu direito de veto (ela é a única equipe que o tem), na organização da categoria.

O chefão da Fiat Chrysler Automobiles (a FCA, que engloba várias marcas, inclusive a Alfa Romeo), Sergio Marchione, esperava que as vendas da marca chegassem a 500 mil unidades, em 2010. Mas mesmo com o lançamento do novo sedã Giulia e do utilitário-esportivo (SUV) Stevio, o volume não deve chegar nem a 80 mil unidades, no fechamento deste ano. No ano passado, a Alfa Romeo contratou 800 novos trabalhadores para sua fábrica italiana de Cassino, mas, deste total, 530 serão dispensados já em 2018. Para piorar as coisas, a FCA sofre a ameaça de uma multa bilionária, de 9,6 bilhões de euros (o equivalente a R$ 37,3 bilhões), por causa de fraude nas emissões do Fiat 500 e de modelos da Jeep. Então, nada melhor do que aproveitar a subserviência da imprensa para passar a imagem – mentirosa – de uma marca que está em um grande momento. Balela...

Missão ingrata

Para o ano que vem, a Alfa Romeo-Sauber vai contar com a dupla de pilotos formada pelo monegasco Jacques Leclerc e o italiano Antonio Giovinazzi.

São eles que terão a ingrata missão de reeditar a lendária performance de Giuseppe Farina e Juan Manuel Fangio, que foram os campeões da F1 em 1950 e 51, nos primeiros anos de existência da categoria, quando a equipe oficial da marca venceu 11 provas e conquistou outros 12 pódios. Depois deste breve período de hegemonia, como construtor, o time voltou à categoria entre a década de 60 e no início dos anos 70, fornecendo propulsores para diversas escuderias, inclusive a McLaren, mas com resultados pífios. Entre 1976 e 79, seus motores equiparam os carros da Brabham, vencendo duas corridas com Nikki Lauda e conquistando o terceiro lugar no campeonato, em 78.

Já de 1980 a 85, com equipe própria, a Alfa Romeo teve resultados modestos – foram cinco pódios, com Bruno Giacomelli, Andrea de Cesaris e Ricardo Patrese. Já em 1986 e 87, junto à Osella, seus motores só conseguiram completar quatro provas. Ou seja, só mesmo quem não conhece a história da Fórmula 1 é que acredita em um mito de vitórias e consagrações. Obviamente, elas existiram, mas em número reduzidíssimo e num tempo muito distante. É inclusive deste passado longínquo, mais especificamente da década de 30, que vem a aura da Alfa Romeo, quando Enzo Ferrari usava seus carros na sua escuderia, isso muito antes de o comendador passar a construir seus próprios monopostos. Já no presente, a marca foca o mercado de automóveis e luta para conseguir ao menos repetir o volume global de 119 mil unidades, alcançado em 2010. Até porque, se isso não se concretizar com a exposição que ela terá na F1, tudo aponta para o encerramento de suas atividades.