Se o Automobilismo já é um esporte machista, imagine a Fórmula 1! Desde 1950, ano de estreia da categoria máxima, até hoje, apenas cinco mulheres participaram efetivamente do circo, mas o que quase ninguém sabe é que uma sul-africana, Desiré Wilson, chegou a vencer uma etapa da versão britânica da F1. Bom, esta é outra coisa de que pouca gente tem conhecimento: além de provas que não contavam pontos para os campeonatos de pilotos e construtores, a Fórmula 1 teve edições regionais, paralelas ao mundial, na África do Sul (de 1960 a 86) e Inglaterra (de 1978 a 80, e em 1982).

Em ambos os casos, as temporadas – que chegaram a ter 15 corridas, na versão britânica – eram disputadas com monopostos usados da F1 mundial, como o Lotus 72 (vencedor de 20 provas, entre 1970 e 75, incluindo o título de 1972, com Emerson Fittipaldi), o McLaren M23 (vencedor de 16 provas entre 1973 e 78, incluindo o título de 1974, também com Fittipaldi), o Williams FW07 (vencedor de 15 provas entre 1979 e 82, incluindo os títulos de 1980 e 81), o Brabham BT20 (vencedor dos campeonatos de 1966 e 67), o Wolf WR1 (vencedor de três provas, em 1977) e o Tyrrel 008 (vencedor do Grande Prêmio de Mônaco de 1978), além de modelos da Ensign, Cooper e até mesmo da extinta equipe brasileira Fittipaldi.

Desiré Wilson não caiu de paraquedas na Fórmula 1, como o leitor mais machista pode imaginar. A garota de Brakpan, cidade de mineradores próxima de Johanesburgo e Pretória, começou na antiga F-Vee sul-africana. Já na primeira temporada, ela conquistou uma honrosa quarta posição – isso com apenas 19 anos. Em 1974, ficou em segundo. Em 75 e 76, foi campeã, partindo para a Europa, onde terminou em terceiro nos campeonatos da F-2000 britânica e holandesa. Confira, aqui, um minidoc sobre ela!

Na sua primeira temporada na F1 Britânica, em 1978, Desiré conquistou um pódio, cruzando a linha de chega na terceira posição, em Thruxton. Apesar de ter participado de apenas cinco das 12 etapas daquele ano, ela fez bonito diante de nomes como Elio De Angelis, que teve uma carreira reconhecidíssima na Fórmula 1 mundial, entre 1979 e 1986, ganhando duas corridas na categoria máxima.

Em 1979, a sul-africana subiu quatro vezes no pódio, pontuando em nove das 15 etapas daquela temporada. Em 1980, Desiré participou de seis das 12 provas do campeonato e, além de vencer em Brands Hatch, conquistou um segundo lugar, em Thruxton, e um terceiro, Mallory Park.

Endurance e Indy

Meu pai corria de motocicleta e chegou a ser campeão sul-africano. Quando eu tinha apenas cinco anos, ele me deu meu primeiro carro de corrida”, relembra Desiré em seu livro de memórias, “Driven By Desire” (sem tradução, no Brasil), lançado em 2011. “Eu era uma mulher no meio de homens e, apesar de receber uma atenção especial dos outros competidores, ninguém queria perder para mim. Também tive muita dificuldade para convencer os patrocinadores”, pontua a ex-piloto. “Meus carros favoritos são aqueles com que venci. O Wolf WR4, com que ganhei o Grande Prêmio de Brands Hatch, é, sem dúvida, o modelo que mais me marcou. Era um carro muito rápido, com que Jody Scheckter tinha vencido três provas da temporada de 1977 da F1, terminando aquele ano como vice-campeão”.

A vitória em Brands Hatch, em 7 de abril de 1980, pela Fórmula 1 britânica, credenciou Desiré Wilson para disputar o Grande Prêmio da Inglaterra da categoria máxima, em julho daquele mesmo ano. Infelizmente, ela não conseguiu repetir o bom desempenho de quatro meses antes, com um Williams FW07, correndo por uma equipe satélite. A prova foi vencida pelo australiano Alan Jones com o FW07B da equipe oficial, uma evolução do carro usado por Desiré – o brasileiro Nelson Piquet chegou em segundo, com seu Brabham BT49.

Mas aquele foi o ano da sul-africana e, se a passagem pela F1 foi frustrante, o mesmo não se pode dizer de seu desempenho no Mundial de Endurance (Esporte-Protótipo), antecessor do WEC atual. Ao lado do francês Alain de Cadenet, um dos mais renomados pilotos de provas de longa duração das décadas de 70 e 80, Desiré venceu os 1.000 Quilômetros de Monza e as 6 Horas de Silverstone a bordo de um Lola LM especialmente preparado pelo próprio Cadenet, batendo nomes como Henri Pescarolo, Riccardo Patrese, Eddie Cheever, Vittorio Brambilla e Michelle Alboreto, todos com passagens expressivas pela Fórmula 1.

Em 1983 e 86, a sul-africana disputou 11 etapas da IndyCar (Fórmula Indy), sem obter resultados relevantes. O grande sonho de correr as 500 Milhas de Indianápolis não foi realizado, já que Desiré não conseguiu passar da pré-qualificação na edição de 1983 – naquele ano, outros 19 pilotos não conseguiram uma vaga no grid da maior prova do automobilismo mundial. Na mesma temporada, ela chegou a liderar as 500 Milhas de Pocono, mas rodou sozinha quando estava na ponta e abandonou a corrida. Seu melhor resultado, nos Estados Unidos, foi um décimo lugar em Cleveland.

A ex-piloto completa 64 anos, no final de novembro, e segue acelerando. “Hoje, participo de muitos eventos de antigomobilismo, principalmente nos EUA e em Goodwood – onde acontece o 'Festival of Speed' anual. Tive muitas alegrias e até mesmo um grave acidente, em Mônaco, que poderia ter me custado a vida. Acho que fui uma corredora bastante veloz e, para além de qualquer coisa, sou, sim, a única mulher a vencer a bordo de um Fórmula 1. E acho que este é um título que devo manter ainda por muito tempo”, sustenta Desiré. Seu estilo arrojado, com derrapagens controladas, e sua técnica refinada fazem desta pouco conhecida sul-africana uma das esportistas mais destacadas de nosso tempo.