Quase todo mundo deve conhecer aquele amigo ou parente que é tido como “pé frio”. Toda vez que comparece no local da partida, o time perde de maneira inacreditável ou tem um resultado frustrante. Um jogador crucial acaba se lesionando ou há alguma confusão no estádio. Os episódios reincidentes acabam se tornando motivo de piada construindo um “mito”, que pode até ser alçado como um problema sério por parte de um torcedor fanático desesperado pela má fortuna do time do coração.

Se for o seu caso de conhecer uma figura dessas, ou for a própria figura em questão, saiba que poderia ser muito pior e que provavelmente jamais passará por algo parecido como a desse infeliz torcedor que terá seu caso contado a seguir.

O dia e local da expiação do cordeiro

Era 14 de outubro de 2003, Chicago, cidade sede do tradicional time de #Baseball Chicago Cubs, que naquele dia jogaria o sexto jogo da final da Liga Nacional, em seu estádio Wrigley Field, defendendo a liderança da série por 3x2.

Era opinião corrente entre os atletas profissionais do ramo que não havia lugar melhor na liga para se jogar como visitante. A pressão era mínima os fazendo esquecer, por vezes, que jogavam fora de casa. Isto porque a torcida dos Cubs era conhecida por ser muito amistosa e autoirônica com os seguidos fracassos do time que por décadas não vencia a Liga Nacional, e muito menos a World Series (fazendo uma analogia com o nosso futebol: a liga seria o equivalente a Libertadores e a World ao Mundial de Clubes). Usando de outra analogia futebolística eram tratados como a nossa querida Lusa do Canindé (apesar de que os Cubs já haviam ganhando títulos de expressão em seus primórdios): tradicional, simpática, mas perdedora, que não incomoda ninguém.

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Mas naquele ano as coisas pareciam que iriam mudar finalmente de cenário. O time de Chicago tinha montado um bom time, investido na contratação de um técnico incontestavelmente vencedor, Dusty Baker, e realizado uma campanha empolgante ao longo daquela temporada. O adversário da ocasião, o Florida Marlins, era um time de qualidade, mas bem mais modesto e não era apontado como favorito.

Panorama que instalava expectativa crescente no sofrido torcedor do Cubs que passava a acreditar cada vez mais, embora sempre cuidando em não demonstrar muito entusiasmo por causa dos inúmeros insucessos do passado, que a maldição, por fim, seria quebrada, que 1945 seria enterrado para sempre (episódio folclórico, mas que se tornou perturbador ao passar dos anos, de um torcedor dos Cubs que em 1945 “profetizou” que o time nunca mais ganharia uma World Series. O motivo? Por ter sido obrigado a retirar o seu bode de estimação do estádio devido a reclamação dos torcedores das adjacências quanto ao mau cheiro exalado pelo animal.

Coincidência ou não, os Cubs amargavam, até este jogo de 2003, uma fila de 48 anos).

A intervenção Bartman

Tudo corria bem para Chicago no sexto jogo do duelo contra os Marlins na temporada de 2003. Venciam o jogo por 3 corridas a 0 até a 8ª entrada (penúltima, portanto). Já tinham eliminado um rebatedor e estavam a 5 eliminações de vencer a partida, sagrar-se campeão e deixar os seus fantasmas para trás.

A expectativa era crescente entre o público pagante do Wregley Field, na multidão que se aglomerava em torno do estádio, praticamente paralisando a cidade, e na crônica esportiva que conhecia bem o drama vivido pelos fãs da equipe e alimentava a esperança de testemunhar um acontecimento histórico. Alguns provavelmente já se imaginavam se derramando em lágrimas, principalmente os mais velhos, ao se confirmar o título tão sonhado.

Foi então que ocorreu o lance que redefiniu o rumo da partida.

Mark Prior, arremessador dos Cubs, se preparou para tentar eliminar o segundo rebatedor do Florida Marlins na penúltima entrada do duelo, Luis Castillo.

Este conseguiu rebater a bola lançada, mas o seu sucesso foi relativo. Rebateu uma foul Ball (bola que sobrevoa uma área do campo considerada inválida para computar uma corrida. Porém, se o outfielder, defensor externo do time que arremessou a bola, conseguir encaixar a redonda na luva sem deixá-la cair no chão, o rebatedor é eliminado).

Era impossível definir se era uma bola “pegável” ou uma bola perdida, ou seja, cairia no meio da multidão encerrando a jogada, mas que não resultaria em grandes consequências, apenas se prosseguiria com a série de arremessos.

Porém, Moisés Alou, outfield dos Cubs, apostou que seria possível salvar aquela bola e correu determinado a comprovar sua impressão.

Vários torcedores na fileira que a bola se dirigia levantaram e esticaram os braços no afã de receptar o rebate, crentes que era uma bola perdida e ignorando a progressão de Alou.

O defensor, acompanhando a trajetória da redonda em sua corrida célere, saltou esticando a mão enluvada e invadindo a área da fileira dos torcedores.

Quis o destino, dentre as diversas mãos espalmadas, que a bola ficasse no alcance da de Steve Bartman, que tentou encaixá-la, sem sucesso, mas se interpondo na frente da luva de Moisés o impedindo de fazer a recepção certeira.

A escalada da tensão

Os expectadores no estádio acharam que se tratou de um lance corriqueiro no primeiro instante. Não havia telões em Wregley e poucos puderam testemunhar a ação em detalhes. Mas a reação de Moises Alou colocou uma dúvida inquietante na cabeça do público. Ele esbravejou direcionando o olhar na aglomeração onde estava Steve Bartman e jogou a luva no chão.

Mas como os Cubs continuavam vencendo a partida, o jogo prosseguiu normalmente.

Quem assistia o jogo pela TV, viu diversas vezes o lance polêmico e o porquê da irritação do defensor da equipe em vantagem.

A imagem de Steve e o seu nome foram divulgados.

Para tremendo azar do jovem torcedor dos Cubs, tudo começou a dar errado dentro de campo depois de sua intervenção e o time da casa acabou levando uma virada histórica de 8x3.

A perplexidade e a revolta na torcida eram imensas. O público reunido do lado de fora do campo, que acompanhava a partida em televisores improvisados na rua, entenderam que o lance envolvendo Bartman foi capital para derrocada espantosa dos Cubs e começaram a gritar enfurecidos: “asshole, asshole” (idiota, imbecil). Alguns mais exaltados ameaçavam o infeliz torcedor alertando de que não sairia vivo de Wregley Field.

A balbúrdia crescente do lado de fora passou a ser ouvida nas arquibancadas. Os parentes do público pagante ligavam informando sobre a conduta daquele imprevisível personagem. O boca a boca começou a se propagar sem intervalo, como fogo seguindo uma trilha de pólvora...

Bartman em apuros

Sem dúvida foi um momento triste e grotesco da história da cidade. Presenciou-se o desmoronar de uma fachada hipócrita, revelando que a suposta indiferença quanto à pecha de “losers” da torcida dos Cubs era apenas um recurso para disfarçar o quanto os seguidos insucessos incomodava. Testemunhou-se naquela noite o transformar de pessoas tidas como dóceis, receptivas, bem humoradas em seres truculentos, rancorosos e desequilibrados.

Pessoas começaram a abordar o jovem Steve Bartman, senhores de idade proferiam insultos, pais de família jogavam cerveja, donas de casa incitavam ações violentas.

Carros a mais carros da polícia chegavam ao local.

A equipe de segurança foi até o assento de Bartman, o escoltaram servindo de escudo aos inúmeros objetos arremessados, aos constantes empurrões e tentativas de furar o bloqueio. O colocaram na sala dos funcionários do estádio. Fizeram vestir o uniforme dos seguranças. O conduziram por uma saída secreta.

O pós-jogo

Bartman foi alvo de piadas e comiseração nos veículos de imprensa. Sua casa recebeu proteção policial. Recebia inúmeros telefonemas de ameaça de morte. Ele acabou desaparecendo. Ninguém mais sabia sobre o seu paradeiro.

O curioso era que como ele estava usando boné, óculos, fones de ouvidos e um blusão com uma gola grossa cobrindo todo o pescoço era difícil reconhecê-lo sem essa parafernália. Também contava com uma boa rede de amigos que jamais o prejudicou revelando informações inconvenientes. Dizem que até hoje evitar usar cartão de crédito para não revelar a sua identidade.

A rejeição ao seu nome só ganho mais peso com o jogo 7 da noite seguinte em que voltou a reprisar o resultado da partida passada: derrota dos Cubs, deixando escapar por entre os dedos o título.

A imprensa tentava encontrá-lo para ouvir o seu lado. Entrevistava amigos e vizinhos. Chegou a oferecer dinheiro, uma pequena fortuna, para emplacar uma entrevista. Mas em vão. Bartman estava resoluto em se manter nas sombras. O máximo que se conseguiu foi um comunicado oficial, enviado pelo seu advogado, onde pedia desculpas pelo que havia feito.

Até onde se sabe, jamais voltou a frequentar Wregley Field. Continua morando em Chicago, mas o local de sua residência é um mistério.

Injustiçado

A crítica especializada aponta que culpar o pobre Steve Bartman é uma grande injustiça e ele serviu de bode expiatório para justificar o retumbante fracasso dos atletas dos Cubs, que demonstraram flagrante instabilidade emocional e cometeram erros imperdoáveis que passaram batidos graças ao infeliz episódio.

Até mesmo a torcida, anos mais tarde, reconheceu a importância exagerada que deu ao caso. Várias vezes organizou-se movimento para receber, com honras e homenagem, Bartman de volta ao estádio.

Todas recusadas.

Repercussão Cultural

O impacto de determinados acontecimentos podem ser medidos na capacidade de ser absorvido e consumido pelo meio cultural. O caso Steve Bartman, sem dúvida, deixou sua contribuição na cultura pop americana. #Curiosidades #Esportes

  • Influenciou reformulação na regra do baseball para evitar que novos episódios como esse ocorressem novamente.
  • A cadeira que ocupou no fatídico 14 de outubro de 2003 virou atração turística, especialmente em um jogo 6 de playoff.
  • Virou quadrinho.
  • Alvo de referências em séries, desenhos e filmes, como no Family Guy.
  • Virou documentário produzido pela ESPN: “Catching Hell”, 2011. (Excelente).
  • Filme de John Whittington (2015), True Fan.