O atletismo paralímpico é praticado por pessoas com deficiência física, visual e intelectual. Existem provas de arremesso, lançamento, corrida e salto e tanto mulheres quanto homens podem participar. Os competidores são divididos em grupos de acordo com o grau de deficiência constatado pela classificação funcional. No Brasil, a modalidade é administrada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Somando todas as medalhas conquistadas em paralimpíadas, o Brasil possui 109 medalhas, sendo 32 de ouro, 47 de prata e 30 de bronze. O nosso entrevistado é o paratleta Michel Abraham, de 19 anos, membro da seleção brasileira de paratletismo e um dos 25 atletas convocados para o Mundial de Atletismo em Londres, que aconteceu entre 14 e 23 de julho deste ano.

Michel perdeu o movimento do braço esquerdo aos 14 anos, após bater em um caminhão com sua bicicleta. Ficou quase um mês no hospital e nove dias na UTI. Conheceu o atletismo por meio de um professor da escola e, em 2014, começou a competir. Suas especialidades são o salto em distância e o salto triplo.

Entrevista com Michel Gustavo Abraham de Deus, atleta paralímpico.

R: Há quanto tempo você está no paratletismo? Como foi o processo de inclusão no esporte?

MG: São três anos de inclusão no esporte. Um dia jogando basquete na escola, meu professor de educação física viu que eu tinha talento no paratletismo, ele participava de um projeto de paradesporto e me apresentou ao meu atual técnico. Eu fui conhecer e acabei gostando.

R: Você já presenciou alguma cena de preconceito ou algum tipo de piada vindo da plateia?

MG: Da plateia em si não, pois todos ali têm deficiência, porém na escola sofri.

R: Em que momento você percebeu que tinha futuro no esporte?

MG: Quando fui convocado pela primeira vez. Foi uma surpresa muito grande, não imaginava o reconhecimento.

R: Antes de sofrer o acidente, você já praticava algum tipo de esporte?

MG: Nunca fui um cara muito atlético. Nunca gostei, tanto que no dia que meu professor me levou para o atletismo, participei da aula para não ficar sem nota.

R: Como sua família reagiu ao saber que você iria disputar em Londres?

MG: Ficaram muito felizes e surpresos, pois passou de uma brincadeira para uma coisa séria, passei a representar meu país.

R: Se não fosse o esporte, onde você acha que estaria hoje em dia?

MG: Em casa, não sei. Depois que sofri o acidente, fiquei meio desanimado com a vida.

R: Você entrou em processo de depressão?

MG: Creio que sim.

R: Você tem alguma inspiração no esporte?

MG: A inspiração é ver outros atletas com deficiência maiores, determinados e conseguindo e não desistindo da vida. Eu vi que meu problema era pequeno em relação aos outros.

R: Na carreira esportiva de um paratleta o que é mais fácil?

MG: Não tem parte fácil, a inclusão não é fácil, porque na TV não vê a gente direito, você por exemplo não viu a seleção que foi para Londres.

R: Vocês sofrem preconceito?

MG: Não é um preconceito, é falta de interesse de divulgar. Em Londres é outra situação, a gente saía do estádio e parecia jogador de futebol, todo mundo vinha tirar foto e isso não é uma coisa que a gente vê aqui no país. Você ganha competição, bate recordes, vai embora e ninguém nem sabe quem é você, entendeu. Também não acho que é preconceito. O país é virado para um esporte só.

R: E o que é mais difícil?

MG: O reconhecimento. Igual ao Alessandro. O Alessandro foi campeão panamericano em duas provas, foi campeão paralímpico e depois bateu recorde mundial e foi campeão mundial agora em Londres, mas ninguém nem sabe quem é ele. Você já viu ele antes? O reconhecimento é a maior dificuldade no esporte paralímpico, o que dificulta patrocínio, dificulta investimento, porque o patrocinador quer que você seja visto. Se você não é visto, não aparece é difícil patrocinar, porque por exemplo na Nike, eles vão patrocinar um cara que aparece direto na TV, eles patrocinam gente que aparece. Como o esporte paralímpico não aparece é difícil patrocínio.

R: Quais as principais mudanças que o esporte trouxe a sua vida, em questão de qualidade de vida, comportamento?

MG: Minha qualidade de vida, tudo. Comportamento, minha vida social, tudo que eu faço mudou demais.

R: Sua cabeça, seu jeito de ser mudaram muito? Você acha que se tornou uma pessoa melhor?

MG: Mudaram um pouco sim. Me tornei uma pessoa melhor, tornei uma pessoa mais perseverante, penso mais nos outros também. Antes pensava só em mim, por que isso aconteceu comigo? Perdi o movimento do meu braço e tal e depois você vê pessoas que estão em situação bem pior que você e não mexem nada do pescoço para baixo e vão numa competição e estão sorrindo, estão felizes. Eu aprendi a reconhecer que meu problema não é o maior do mundo, que tem gente que vive feliz com problema maior que o meu.

R: Você já pensou em desistir?

MG: Muitas vezes, porque nada é fácil, é tudo difícil. Treinar dói, tem dia que dá vontade de desistir, você vai para casa com dor no corpo. Por exemplo, eu estou lesionado, não sei se vou competir esse ano. Nesses momentos bate o desânimo.

R: O que você faz para não desanimar na hora da competição?

MG: Na hora da competição eu penso na minha família, penso no tanto que eu trabalhei para chegar até ali. Penso em todos que me ajudaram. O tanto que me esforcei, o tanto que outros se esforçaram para me ajudar.

R: Quais são seus planos agora que voltou de Londres?

MG: Continuar trabalhando, pensando agora em 2020. Pensando em melhorar resultado e medalhar nas paralímpiadas de 2020 e ir evoluindo daqui até lá.

R: Quais são os requisitos para conseguir os patrocínios? O paratleta enfrenta muitas dificuldades para construir uma carreira no Brasil?

MG: Visibilidade. Depende, uma carreira muito rica, sim. Mas, há muitos recursos, há bolsas, há estímulos para que o atleta continue chegando, mas é um pouco difícil.

R: Quais são os tipos de bolsa que existe?

MG: Existe bolsa pódio, o requisito é estar entre os 3 melhores do mundo. Existe a bolsa atleta que requer que você seja um dos 3 melhores do Brasil. Existe a bolsa internacional que é para quando você medalha em competição internacional. Existe a bolsa talento, mas eu não sei o requisito dela.

Michel poderá representar o Brasil nas próximas paraolímpiadas, pois é uma grande promessa para o esporte.