Witney é uma cidadezinha inglesa com menos de 30 mil habitantes, que fica a 20 quilômetros de Oxford e 110 quilômetros de Londres. Um berço pouco provável para uma equipe de Fórmula 1 [VIDEO]. Não fosse sua fama na produção de edredons, desde a Idade Média, ela seria totalmente desconhecida. Mas quis o destino que Witney entrasse no mapa pelas mãos do automobilismo, com a Toleman, descobrindo o talento nascente de ninguém menos que Ayrton Senna

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Oriunda da antiga Fórmula 2, onde conquistara o campeonato e o vice-campeonato de 1980, com a dupla formada por Brian Henton e Derek Warwick, a Toleman ingressou na Fórmula 1 em 81, encorajada pelo título na F2.

Em um ano de estreia catastrófico, a escuderia britânica só conseguiu passar da pré-qualificação em duas das 15 etapas daquela temporada. Henton largou em 23º, em Monza, e conquistou um honroso décimo lugar, no GP da Itália, enquanto Warwick, que só conseguiu um lugar no grid na última etapa do campeonato, nos Estados Unidos, abandou na 43ª volta do Grande Prêmio do Caesars Palace – mesmo GP que marcou o primeiro título de Nelson Piquet na F1.

Em 1982, o italiano Teo Fabi substituiu Henton, mas o time não teve melhor sorte e, das 16 provas daquele ano, a Toleman só conseguiu terminar em duas ocasiões – novamente, um 10º lugar de Warwick, em Hockenheim, foi o resultado mais alentador da equipe britânica. Em 83, as coisas melhoraram e, com Bruno Giacomelli no lugar de Fabi, os ventos começaram a soprar a favor da Toleman.

Warwick terminou na zona de pontuação nas quatro últimas corridas daquele ano e até mesmo o estreante Giacomelli conseguiu um sexto lugar, em Brands Hatch, chegando imediatamente atrás de seu companheiro.

O time fundado por Ted Toleman (que acumulara experiência com barcos de corrida, na off-shore powerboat) e Alex Hawkridge dava os primeiros passos em direção à celebridade, mas ainda faltava algo para a equipe garantir um lugar no panteão da glória da F1, ao lado de Ferrari, McLaren, Williams, Lotus, Mercedes, Brabham, Renault, Tyrrell, BRM, Alfa Romeo [VIDEO], Maserati e Ligier, entre outras. Entre 1981 e 1983, o time colecionara 33 eliminações na pré-qualificação e 32 abandonos, com sua dupla de pilotos terminando apenas 15 corridas. Mas tudo mudou em 84, quando a Toleman apostou todas as suas fichas numa nova estrela, que havia acabado de conquistar o título da F3 Inglesa: Ayrton Senna.

Junto com o brasileiro, a escuderia também trouxe o venezuelano Johnny Cecotto, campeão da F2, em 82, e campeão da motovelocidade, em 75.

Senna obtivera 12 vitórias nas 20 etapas da F3 Inglesa, um ano antes, além de 15 pole positions.

Estreia frustante

A estreia de Senna, no Brasil, foi frustrante: o brasileiro foi o primeiro a abandonar, com apenas oito voltas. “É o início de uma batalha. Hoje, aconteceu alguma coisa, porque o carro começou a vibrar bastante. Acho que o turbocompressor quebrou. Foi de uma hora para a outra”, comentou o brasileiro ainda nos boxes do circuito de Jacarepaguá. Mas já na segunda etapa do campeonato, na África do Sul, ele conseguiu a melhor posição no grid da curta trajetória da equipe e, partindo da 13ª posição, terminou em sexto, marcando seu primeiro ponto na F1. O esforço no calor sul-africano foi tão grande, que Senna desmaiou e foi hospitalizado.

O carro estava impossível de guiar, mas não tinha o que fazer. Eu queria que a corrida acabasse antes da metade e, no final, me falaram que eu tinha ficado em sétimo, então fiquei decepcionado depois deste esforço todo, poxa. Mas, agora, não dá nem para rir”, declarou o piloto, imobilizado na cama do hospital.

Na etapa seguinte, na Bélgica, Senna repetiu a dose: largou em 19º e terminou novamente em sexto, duas posições à frente de Piquet, campeão do ano anterior, com seu Brabham-BMW. “Ele é o piloto mais espetacular que eu vi, na minha vida no automobilismo. No seu primeiro ano, na Fórmula Ford, ele venceu tudo. Venceu tudo, novamente, no segundo e terceiro anos. E nesta primeira temporada na F1, ele já fez coisas extraordinárias”, afirmou, na época, o chefe de equipe da Toleman e ex-piloto de F1, Peter Gethin. “Nós não temos a mesma potência das grandes equipes. Por isso, ele é excepcional. Temos o melhor piloto da F1”, concluiu o patrão.

Depois de dois péssimos resultados nos GPs de San Marino e da França, a Toleman viveria seu dia de glória em Mônaco. Nas ruas de Monte Carlo, debaixo de muita chuva, Senna fez uma corrida épica, saltando do 13º lugar no grid para o pódio. A prova foi interrompida com apenas 31 das 76 voltas previstas, e o brasileiro terminou em segundo, atrás de Alain Prost. A interrupção aconteceu no momento em que Senna (dono da melhor volta da corrida) se aproximava rapidamente do francês, e pouco depois de ele ter passado, de passagem, por Nikki Lauda, companheiro de Prost na McLaren-TAG – Lauda conquistaria seu terceiro título mundial, no final do ano, com apenas 0,5 ponto de vantagem sobre o francês.

No Canadá, o brasileiro por pouco não abocanhou mais um pontinho, terminando em sétimo, e depois de abandonar nos dois GPs da perna norte-americana, em Detroit e Dallas, Senna voltou a brilhar em Brands Hatch, pulando da sétima posição no grid para mais um pódio. O terceiro lugar foi conquistado de forma extraordinária, já que o brasileiro caiu para a nona posição, logo na largada, e veio se recuperando – a prova chegou a ser interrompida e, na relargada, ele caiu novamente para nono. “A maior emoção, nesta prova, não foi subir no pódio, mas cruzar a linha de chegada e ver os mecânicos da Toleman festejando o terceiro lugar, pulando na pista”, disse o tricampeão.

Com Cecotto afastado por causa de um acidente em que quebrou as duas pernas, a Toleman teve apenas um carro nas três etapas seguintes, na Alemanha, Áustria e Holanda. Apesar de se classificar bem nos treinos, Senna abandonou em todas elas, ficando de fora do GP da Itália, suspenso pela equipe por ter assinado contrato com a Lotus, para 85, “debaixo dos panos”.

“Será campeão”

Na última etapa da temporada de 1984, Senna não só conquistou a melhor posição no grid de um Toleman em toda sua história, largando em terceiro na segunda fila, como subiu novamente no pódio, ao lado de Prost e Lauda, colocando a modestíssima equipe de Witney ao lado da colossal McLaren. As performances do brasileiro garantiram o sétimo lugar na tabela dos construtores para o time britânico, que ficou à frente de Alfa Romeo e Ligier, naquele ano. “Com certeza, ele será campeão do mundo”, profetizou, na época, o ex-chefão da F1, Bernnie Eclestone. “Ele provou que é um dos melhores pilotos da F1 e o importante, agora, é não se afobar. Aprender bastante e estar pronto na hora certa”, complementou o tricampeão Nikki Lauda.

Com a saída de Senna, a Toleman nunca mais conseguiu um bom resultado sequer. Em 85, na despedida da equipe da F1, Teo Fabi completou apenas duas provas. Em maio, a escuderia foi vendida para a Benetton, que conquistaria sua primeira vitória um ano e meio depois, na penúltima etapa de 86, com o austríaco Gerard Berger – o mesmo Berger com quem o brasileiro faria dupla na McLaren, entre 1990 e 92. A rápida trajetória do time inglês é contada em detalhes no livro “The Toleman Story: The Last Romantics in Formula 1”, de Christopher Hilton. Dos 26 pontos anotados pela equipe, em cinco anos, o brasileiro marcou 13, a levando ao pódio em três ocasiões. Mesmo sem ganhar uma única corrida, os “últimos românticos da F1” entraram para a história, ao lado dos maiores campeões da categoria e, muito disso, pelas mãos de Senna!