Tifanny Abreu, de 33 anos, é a primeira mulher transgênera a jogar na categoria feminina pelo time Vôlei Bauru, competindo na Superliga após autorização da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Em março de 2017 ela já havia sido liberada, junto à Federação Internacional de Voleibol (FIVB), a competir profissionalmente.

Há ainda uma decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI), de novembro de 2015, que permite que mulheres trans participem de competições femininas desde que estejam submetidas ao tratamento hormonal e tenham seus níveis de testosterona controlados - procedimento que também faz parte da realidade de mulheres cisgêneras, a fim de avaliar o uso de testosteronas sintetizadas que funcionam como anabolizantes.

Segundo o documento do COI, o nível de testosterona no corpo da atleta deve ser inferior a 10 nanomols por litro e é preciso que ela esteja em tratamento hormonal há pelo menos 12 meses, tempo suficiente para minimizar qualquer vantagem física em competições femininas.

Isso significa que, fisicamente, Tifanny tem o mesmo nível das demais atletas profissionais no que concerne à força, aspecto que tem sido usado por diversas pessoas para desqualificar a decisão dos três órgãos oficiais de permitir a inclusão de mulheres transgêneras nos esportes. Um dos argumentos levantados pela ex-jogadora Ana Paula Kenkel seria o de que, por ter passado grande parte de sua vida como homem, atuando em competições masculinas, o corpo de Tifanny teria sido "construído com testosterona".

Contudo, falar em construção dos corpos de maneira tão simplificada, apenas separando testosterona como hormônio masculino e estrogênio como feminino, acaba por abafar as complexidades individuais na composição de corpos, tanto de atletas, como de não-atletas.

É certo que, em homens adultos, a produção de testosterona é em média 8 vezes maior que em mulheres - sim, mulheres produzem naturalmente esse hormônio.

Mas há um número considerável de mulheres que apresentam altos níveis de testosterona por motivos variados, condição chamada de hiperandrogenismo, a qual é também alvo de muitas controvérsias no meio esportivo. Embora se fale na proibição dessas mulheres - bem como na de mulheres intersexo [VIDEO] que tenham testículos internos - em competições, o embate não ocorre em relação a homens com níveis altos de testosterona, o que nos indica que não se trata, efetivamente, de uma questão objetiva envolvendo apenas hormônios ou vantagens fisio-biológicas - um outro exemplo é o de que pessoas com acromegalia, que produzem grandes quantidades de hormônio do crescimento, nunca foram proibidas de jogar basquete, como Yao Ming ou Gheorghe Muresan, ex-atletas da NBA.

Outra questão a ser considerada está no uso de suplementos com efeito anabólico. Alguns deles de difícil detecção em exames médicos.

Não é raro que atletas profissionais adotem substâncias visando a melhora do desempenho, e os chamados exames antidopping até hoje têm dificuldades para detectar certas combinações que envolvem a testosterona, dependendo principalmente do período de tempo (horas ou dias) em que foi usada.

Outras técnicas, como uso do chamado hormônio do crescimento ou de insulina, também podem influenciar nos resultados das avaliações. Um estudo conduzido em 2014 por uma equipe médica da Universidade de Southampton, no Reino Unido, apontou que 13,7% das atletas tinham um nível de testosterona superior àquele esperado para mulheres.

Levando-se em conta a diversidade e individualidade dos corpos, é mais sensato que uma equipe multidisciplinar avalie os casos de atletas trans que desejem competir, como ocorreu com Tiffany Abreu, do que se determine, de maneira generalizada, uma realidade supostamente biológica, mas pautada no senso comum.

Afinal, se a ciência [VIDEO] tem critérios objetivos e instrumentos de medição específicos, qual o problema em aplicá-la para a inclusão de pessoas transgêneras nos esportes? Aparentemente, o quesito médico-biológico só vale como argumento para indivíduos transfóbicos [VIDEO] quando se procura desqualificar a identidade trans. #Transfobia #Transgênero #LGBT