O goleiro Fernando Prass, de 39 anos, foi contratado pelo Palmeiras no final de 2012 com uma dura missão: trazer o time de volta à elite do futebol, uma vez que o Alviverde tinha acabado de ser rebaixado para a Série A2 do Campeonato Brasileiro. E substituir o goleiro Marcos, que havia se aposentado há pouco mais de um ano. Na época, Prass jogava no Vasco da Gama e era ídolo do time.

No Palmeiras, o arqueiro jogou todas as temporadas como goleiro principal. No entanto, perdeu a titularidade neste ano para o seu companheiro de elenco, Jailson, após a chegada do treinador Roger Machado.

Em entrevista à jornalista Valdenice Oliveira, do site Blasting News, Prass revelou momentos da sua história: conquistas, aposentadoria e frustrações na carreira.

O goleiro também falou sobre o término de seu contrato com o Palmeiras, que se encerra no final deste ano, o seu momento no banco de reservas e expectativas para a temporada. Confira a entrevista na íntegra:

Blasting News: Prass, você foi revelado pelo Grêmio?

Prass: Sim, fiquei quase 11 anos lá

Você foi reserva do Danrlei?

Prass: Sim. Eram quatro goleiros: Murilo, Silvio, Danrlei e eu. Depois do Grêmio, joguei no Francana, fiquei por 4 meses para jogar a Série A2 e depois fui pro Vila Nova, fiquei por um ano e meio. Depois fui para o Coritiba, permaneci por 4 anos; depois para a Europa ,quase 4 anos, e depois vim para o Vasco.

Como foi a sua estadia no Vasco?

Prass: Estava em Portugal e tive um convite do Vasco, que estava se reformulando, ia disputar a Série B. Rodrigo Caetano tinha sido contratado para ser diretor e o conhecia dos tempos do Grêmio.

Ele entrou em contato comigo, como faltavam uns 6 meses para acabar o meu contrato, em Portugal, e pelo clube que é o Vasco, eu achei que era uma boa oportunidade para retornar.

Como foi essa troca do Vasco para o Palmeiras?

Prass: Eu cheguei no Vasco em um momento de reestruturação, subimos à Série A em 2009. 2010 foi um ano difícil... Em 2011, as coisas começaram a se ajeitar. Em 2012 foi mais um ano difícil. Saíram vários jogadores: Diego Souza, Felipe, Dedé, dentre outros. Surgiu a proposta do Palmeiras e achei que era o momento.

Muita gente questiona por que saí do Vasco, onde já estava afirmado, era ídolo e vim para o Palmeiras que estava na Série B, na situação que estava... Não podemos pensar no momento atual e sim pesar a história do clube e o que tu projetas para a tua carreira.

Você veio com uma responsabilidade de substituir o Marcos, que havia se aposentado há pouco mais de um ano. Você teve medo de alguma pressão no Palmeiras?

Prass: Pressão, tu tens, no Vasco, no Palmeiras, Coritiba.

Claro que cada uma com a sua particularidade.

Você se destacou na Série B de 2013, o Palmeiras subiu, e em 2014 quase caiu novamente. Como foi esse momento para vocês?

Prass: A gente que estava aqui em 2013 e 2014 sabe bem o que aconteceu, né? O clube vinha de 2012, rebaixamento, no ano seguinte numa eleição... Se eu não me engano... foi no final de janeiro que o Paulo Nobre assumiu e o clube tinha que fazer um choque de gestão e. isso passa por reequilibrar as finanças fazer uma série de coisas, até conseguir acertar as coisas e engrenar. Leva tempo e esse intervalo foi muito complicado e em 2014 tivemos muita dificuldade e quase fomos rebaixados. Mas acho que esses dois anos, vamos dizer, desse trabalho de formiguinha para reestruturar vem rendendo frutos.

O Alexandre Matos chegou no Palmeiras em 2015 e deu uma cara nova. Contratou jogadores a e equipe conseguiu o título da Copa do Brasil. No momento em que você se destacou: bateu pênalti, defendeu pênalti. Como foi essa conquista para você?

Prass: 2015 passou a ser o segundo mandato do Paulo, e, dentro do planejamento que ele nos passava, que, a partir dali, ele conseguiria começar a colher os frutos do que foi plantado nos últimos dois anos de muita dificuldade: de reestruturação, corte de gastos, de aumento de faturamento.

Neste ano a gente começa a montar grandes times e disputar títulos. O primeiro foi a Copa do Brasil, que foi muito emblemático, né? Foi logo após aquele ano difícil: o primeiro título em nosso estádio em cima de um rival, pois a rivalidade entre Palmeiras e Santos estava muito grande.

Independente se eu tivesse batido o último pênalti ou não, tudo que cercou essa final já seria um título muito emocionante. Ainda mais pelos contornos que teve, de eu bater o último pênalti, de fechar a série, tudo isso colaborou, mas, mesmo que não tivesse acontecido, a sensação seria muito grande.

Em 2016 você foi convocado para a Seleção Olímpica e teve uma lesão muito séria, foi cortado da Seleção sendo substituído pelo Weverton e hoje ele está com vocês. Como é a sua relação com ele?

Prass: Fui substituído pelo Weverton e pelo Jailson, e hoje os dois estão aqui (risos). Para todo jogador é muito ruim se lesionar. Tu imaginas ter a noção de um jogador com 38 anos chegar à Seleção pela primeira vez para disputar uma Olimpíada em casa e a sete dias da estreia se machuca?

É uma frustração muito grande, mas a gente tem que saber lidar com isso, né? Porque tu tens dois caminhos, ou tu te abalas, fica deprimido, não volta mais jogar, ou tenta dar a volta por cima e procura uma nova oportunidade. Sabia que podia ser de repente a minha última chance na Seleção. Mudando de comando, um título na Olimpíada poderia abrir portas, como abriu para o Weverton, né? Então, foi muito complicado. Foi um momento bem difícil.

Você voltou da lesão ainda em 2016. Entrou nos últimos minutos da partida que consagraria o Palmeiras campeão em cima da Chapecoense, que não pôde comemorar por muito tempo porque dois dias depois aconteceu aquela tragédia com a Chapecoense. Como vocês encararam isso?

Prass: A gente gostaria de comemorar por muito tempo, pois fazia tempo que o time não conquistava, mas tem coisas que se sobrepõem a isso. A tragédia foi muito marcante.

Em 2017, O Palmeiras fez muitos investimentos trouxe jogadores de grande expressão: Borja, Guerra, Felipe Melo, entre outros, mas não conseguiu ganhar nada. Como foi esse momento pra vocês?

Prass: Primeiro que futebol não é uma ciência exata. Não é porque contratou mais que vai ser campeão. No Brasil é diferente de qualquer outro país. Na Itália, existem dois três times no máximo que brigam por um título no ano. Na Alemanha um ou dois.

Mas aqui no Brasil é muito complicado. Daqui a pouco você é vice-campeão brasileiro e é considerado um ano como um fracasso. No Campeonato Brasileiro só um time foi melhor que você e se considera um fracasso, um desastre.

Mas acho que quem criou foi o Palmeiras pelo investimento e pelo que tem feito em termos de estrutura e pelo que vem fazendo. A gente não fala só em investimento dentro de campo, fora de campo e nós mesmos trouxemos essa pressão pelo que a gente vem desempenhando nos últimos anos.

O Palmeiras teve uma chance pequena de conquistar o título Brasileiro com tropeços do Corinthians em 2017, se ganhasse do Cruzeiro e o próprio Corinthians. Mas empatou com o Cruzeiro e perdeu do Corinthians.

Prass: O Palmeiras não perdeu o título, aliás, o Corinthians ganhou o título naquele primeiro turno fantástico, e as coisas ruins acabaram sendo boas: eliminação da Sul-Americana, da Copa do Brasil.

Porque o Corinthians, dos times considerados mais fortes, era o único que estava disputando somente o Campeonato Brasileiro. Os outros estavam disputando Copa do Brasil, Libertadores, e perderam um pouco o foco. Aí foi o grande diferencial. Muito embora, se nós tivéssemos vencido esses dois jogos, seria um desempenho muito acima da média da gente.

Como era a sua relação com o técnico Cuca?

Prass: Eu tinha trabalhado com o Cuca em 2004 ou 2005 no Coritiba, mas por quatro jogos só. Se eu não me engano, depois eu fui vendido. Ele já tinha tentado me contratar na época que esteve no Botafogo e no Fluminense em 2007 e 2008, mas nunca deu certo.

Eu voltei a encontrá-lo aqui no Palmeiras. A lembrança que um jogador tem de um treinador vitorioso e que vence com ele tem que ser a melhor possível.

Como você vê o Palmeiras de 2018? A era Roger Machado?

Prass: A gente vem de novo de uma cobrança, de uma expectativa muito grande sabendo que qualquer tropeço aqui é considerado fracasso até pela qualidade dos jogadores que a gente tem. O futebol é muito dinâmico e imediatista.

O treinador precisa de tempo para trabalhar e óbvio que essas vitórias seguidas dão um pouco mais de tranquilidade porque começar um trabalho novo, se não tiver uma sequência boa aqui no Brasil, a gente sabe que as pessoas não têm paciência e avaliam tudo em cima do resultado. Claro que o resultado é importante, mas tem outras coisas no futebol que tu consegues ter percepção para avaliar o trabalho se está sendo bom ou não.

No Campeonato Brasileiro só um time vai ter um trabalho bom e os outros 19 vão ser considerados trabalhos ruins. Mas o início está sendo muito bom, mas, como falei, mais um ano de uma expectativa muito grande.

No Palmeiras você sempre foi titular absoluto. Como é ter se tornado do reserva do Jailson?

Prass: Nunca me considerei um titular absoluto, todo ano sempre foi uma batalha para saber quem saía jogando e durante o ano era uma batalha para se manter jogando. Mas o futebol não te dá nenhuma garantia que vai começar o ano como titular e que vai terminar.

Tu tens que conquistar o seu espaço no dia a dia e aí é muito da percepção do treinador, o que ele acha que está no melhor momento. Óbvio que, para mim, é um fato novo. Joguei de titular por quase 19 anos: Coritiba, Vasco, Vila Nova, Leiria, Palmeiras. Estou levando isso como uma experiência para me tornar de repente um profissional melhor ainda.

Seu contrato termina no final desta temporada? Você pensa em encerrar a carreira no Palmeiras?

Prass: Sim! Se eu pudesse traçar um roteiro é óbvio seria encerrar a minha carreira aqui, mas a única certeza que tenho é que não paro de jogar em 2018 e meu contrato vai até o final de 2018. Se eu vou renovar aqui, se eu vou fazer mais um ano aqui, ou um ou dois em outro lugar, não sei. Mas a minha vontade é jogar mais um pouco. Minha vontade é enorme de encerrar a carreira aqui. Mas quero jogar mais um pouco.

Se fosse para destacar o melhor momento ou pior momento, o que você destacaria?

Prass: Um dos melhores momentos foi a minha chegada me proporcionou viver tudo isso: Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, convocação para a Seleção. Pior momento foram as lesões, sem dúvida nenhuma.