Faltavam somente 30 segundos de partida quando a Bélgica, inteligente e estratégica, conseguiu um escanteio na ponta direita. Já não havia tempo para mais nada e, mesmo antes do apito final da arbitragem, os belgas já sorriam com uma classificação inesperada e histórica diante do favorito Brasil. Bola em jogo e logo ao centro: sem mais tempo a agir, os brasileiros davam adeus nas quartas de final da Copa do Mundo na última sexta-feira.

Invicto em jogos oficiais até o jogo contra a Bélgica, Tite construiu uma campanha sólida desde que assumiu o cargo na segunda metade de 2016 - com justiça, era erguido ao posto de técnico da seleção brasileira até com um certo atraso de dois anos.

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Mas ele também errou no Mundial da Rússia.

Convocação

Contra a Bélgica, sobretudo na etapa complementar, ficou nítida a falta de articulação no meio campo e a necessidade brasileira das jogadas individuais pelas pontas.

Como meia de origem articuladora, Tite só levou o seu homem de confiança Renato Augusto, que fez o gol de honra contra os belgas e deu vida ao Brasil na sua entrada no segundo tempo.

Alguns outros nomes convocados também se mostrar insuficientes na Copa. Nisso, Tite cometeu o mesmo pecado dos últimos dois treinadores do Brasil em Copas [VIDEO]: Dunga, em 2010, e Felipão, em 2014, que é se "fechar" com um mesmo grupo por conta de bons resultados obtidos seis meses ou até um ano antes da disputa da Copa em si.

Fagner, Paulinho, Willian e Gabriel Jesus foram alguns dos titulares que demonstraram fraquezas na Copa, sobretudo no jogo contra a Bélgica.

Substituições protocolares

Roberto Firmino, Fernandinho, Douglas Costa e Renato Augusto eram praticamente as únicas opções que Tite usava nos transcorrer do jogo.

Jogadores como Fred e Taison sequer foram lembrados em jogo algum, então por que foram convocados? Um atleta do porte Fred, móvel e de transição rápida no meio, poderia ser útil para quebrar as linhas da Bélgica, mas não havia jogado um minuto sequer até esta partida.

Nos treinos prévios ao Mundial na Inglaterra, Fred teve uma lesão no tornozelo. Não se sabe até que ponto ele, de fato, reunia condições de jogo desde então. Se não estivesse 100%, o ideal era o corte para que outro jogador pudesse ajudar a seleção.

Proteção a Neymar

Melhor jogador do Brasil e postulante habitual ao posto de melhor do mundo, Neymar foi um capítulo à parte na Copa do Mundo. Nos dois primeiros jogos contra Suíça e Costa Rica, ele sofreu muitas faltas, simulou em outras, reclamou dos rivais, do juiz e não teve a postura ideal que dele se espera. Foi protegido por todos: colegas de seleção e comissão técnica.

Nos jogos seguintes, ele procurou se controlar e focar no futebol, mas aí já era "tarde demais". O México, por exemplo, bateu em Neymar durante toda a partida de oitavas de final sem que ninguém fosse expulso.

Os árbitros, por outro lado, já pensam duas vezes antes de marcarem faltas ou pênaltis no camisa 10 - como foi visto contra a Costa Rica na segunda rodada. A fama involuntária criada pelo craque do PSG agora se volta contra ele. E prejudica a seleção.

Derrota tática

Sim, é verdade que o Brasil [VIDEO] teve situações inúmeras de gol contra a Bélgica e que o goleiro Courtois foi destaque. Mas, do outro lado, chamou a atenção a liberdade que jogadores como Hazard e De Bruyne - dois dos melhores meias do mundo - tiveram liberdade para atuar no campo de defesa do Brasil. O segundo gol, marcado pelo próprio De Bruyne, espanta pela facilidade com que o meia belga teve na condução de bola sem ser incomodado.

Roberto Martínez, técnico da Bélgica, acertou na escolha do seu 4-3-3 dando liberdade de flutuação para o centroavante Lukaku, outra pedra no sapato da defesa brasileira. O meio campo, sempre organizado e estruturado com Tite, se mostrou perdido durante o primeiro tempo contra os belgas.

Willian e Gabriel Jesus

É indiscutível afirmar que se tratam de dois grandes jogadores e que merecem, sim, mais chances na seleção. Mas Gabriel, por exemplo, foi decepcionante desde o primeiro jogo - em que pese a defesa feita pela comissão técnica sobre a sua importância tática. Ele deixa a Copa sem gols marcados e com pouquíssimos chutes a gol. Roberto Firmino já poderia ter terminado a primeira fase como titular.

Willian, faça-se a ressalva, foi o destaque contra o México, mas teve atuação ruim em todos os demais jogos. Sua permanência como titular poderia ter sido repensada até pelas opções: Renato Augusto no meio com Coutinho deslocado à direita ou Douglas Costa.