Quem me conhece sabe o quanto amo escalar e como um desafio me motiva. Após ter retornado do Everest em 2013, fui questionada algumas vezes porque não subi o Everest pela face Norte e sempre pensava: ”Puxa seria bem legal ter uma oportunidade de escalar novamente essa montanha e conhecer a outra face dela.”

Foi dando uma palestra para um grande apoiador meu, a The North Face, que pintou a tão esperada oportunidade. Então, decidi aproveitar que já iria voltar aos himalaias por causa do Trekking solidário que íamos realizar no Nepal e decidi que depois disso iria cruzar para o Tibete para escalar a face Norte do Everest.

Só que essa decisão aconteceu uma semana antes de eu embarcar para Catmandu. Imediatamente liguei para meu amigo PembaSherpa, que conheço desde 2010 e que escalou comigo em 2013. A gente não planejava uma expedição desse porte pra 2017, mas em 5 minutos de conversa já tínhamos concordado que tentaríamos a permissão de escalada junto ao governo chinês e que, se desse certo, chegaríamos novamente juntos no topo do mundo 4 anos depois pelo outro lado.

Precisávamos correr com os documentos e a papelada, já que o prazo das permissões de 2017 encerrava em apenas dois dias.

Se foi sorte, ou se o universo já tinha planejado isso antes, não sei. Só sei que fomos os últimos escaladores a conseguir aprovação para a subida pela face Norte no ano de 2017.

Trekking solidário

Toda essa viagem me marcou por muitos motivos. A começar pela nossa primeira etapa, um trekking solidário no qual a verba arrecadada foi toda convertida para equipar a escola que o Instituto Dharma construiu em Patle, no Nepal. Também investimos em um ano de salários para os professores e em uma quadra para as crianças jogarem.

Foi a décima vez que fiz a trilha do Khumbu, que vai de Lukla até o acampamento base do Everest pelo lado Sul. Nossos parceiros do Gente de Montanha e um total de 44 brasileiros, juntos arrecadamos quase R$ 30.000 nesse trekking de 11 dias, que bateu recorde em número de pessoas. Todos ali se emocionaram ao ver o lindo trabalho que o Instituto Dharma e o PembaSherpa vinham fazendo desde 2015.

Após o trekking, visitamos o vilarejo de Patle para conhecer a comunidade e inaugurar nossa linda escola.

O clima era de festa e comemoração, bandeiras brasileiras se juntavam às prayers flags nepalesas, decorando o lugar. Muitos discursos, músicas sherpas, eles estavam tão felizes em nos receber e nós, nem se fala.

O que começou apenas como uma ideia se transformara em um projeto que mudará o futuro de muitas crianças. Como isso pode ser tão recompensador.

A face Norte

Apesar de tantos eventos, ainda tinha que encarar o meu desafio pessoal, a outra face do Everest, a mais técnica. A mesma montanha, mas uma rota totalmente diferente, mais difícil e exigente.

Essa expedição foi, sem dúvida, uma das coisas mais difíceis que já fiz!

De Catmandu voamos para Lhasa, capital do Tibete, agora China. De carro, seguimos dois dias dirigindo por vales infinitos até o acampamento base do lado norte. Acreditava que o trekking de Khumbu, onde alcançamos a altitude de 5.800 metros, tinha nos ajudado na aclimatação.

Já era 2 de maio. A maior parte dos montanhistas da face Norte estavam terminando seus ciclos de aclimatação e nossa pequena equipe estava chegando na base da montanha.

O tempo era curto, curtíssimo!

Tínhamos uma agenda de subida apertada, não haveria tempo para mais de um ciclo. Também não haveria margem para erros ou ninguém poderia adoecer (e nas condições que nos submetemos no Everest, isso é quase que esperado). Sabemos que montanhas acima de 8.000 metros implicam em escalada de extremo risco. Que dizer do Everest, a mais alta do mundo!

Qualquer detalhe, como um simples rasgo no meu macacão de pluma, podia ter consequências graves, até a morte. Estávamos avançando bem, o trekking no Nepal tinha ajudado.

Logo no começo, o passo era mais lento. Do acampamento base, onde o carro nos deixou, até o ABC (conhecido por campo base avançado) foram aproximadamente 22 km caminhando morro acima. Os rios já não estavam completamente congelados, o que já traz um certo desconforto por não termos certeza da força do gelo para nos aguentar passando por cima.

As horas a menos de sol, por ser a face Norte, somado aos ventos mais fortes do mundo (e lá é famoso por isso), fazem com que o frio neste lado da montanha eleve bastante o grau de dificuldade da expedição. E infelizmente, mais uma vez, não pude ter minha equipe inteira no topo comigo.

Dessa vez, o Marcelo, meu marido, que seria responsável pelo registro fotográfico, ficou doente durante o primeiro ciclo e teve que ficar se recuperando no acampamento base.

Ataque ao cume

Um dia após eu completar 35 anos, partimos para o ataque ao cume. Havia corpos congelados pelo caminho, algo que não vi em 2013. Por não ter meios de resgatar as pessoas falecidas na parede, os mortos ficam lá, algo assustador para quem está escalando, mas uma forma de nos lembrar que os perigos que estamos enfrentando são reais. E que o poder da montanha supera a força de qualquer humano.

No total, há mais de 300 cadáveres no Everest, passei por 10 dessa vez e já me impressionou muito.

No dia 21 de maio de 2017, às 6h45, alcançamos o topo do Everest e comemorei com o PembaSherpa mais uma vez.

Que privilégio ter a oportunidade de ver uma das vistas mais espetaculares do planeta pela segunda vez. Mas em alta montanha o cume é apenas metade do caminho. Foram apenas 15 minutos apreciando, alguns cliques e já começamos nosso caminho de volta.

A expedição durou 20 dias, foi a mais curta dessa temporada na face Norte, mas conseguimos chegar lá e na nossa primeira e única tentativa. Uma conquista com gosto de vitória, de missão cumprida. Como disse David McCullogh Jr.: "Não escale a montanha para fincar a bandeira, mas, sim, para abraçar o desafio.

Aprecie o ar puro e se alegre com a paisagem. Escale para que você possa ver o mundo e não para que o mundo te veja."

E aí como amo aquela música da Ana Vilela que diz: "Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu. É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu."

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