A Corte Suprema da Coreia do Sul condenou o Estado sul-coreano a indenizar 117 “mulheres de conforto” por ter incentivado o funcionamento da indústria da prostituição ao redor de bases militares dos EUA em seu território.

“Como se deduz dos documentos oficiais do Ministério da Saúde, [o Estado sul-coreano] procurava, entre os que viviam perto das bases estadunidenses, 'mulheres de conforto', a quem exigia que oferecessem serviços 'de cortesia', ou seja, se prostituir, entre os militares estrangeiros, para que esses relaxassem e pudessem utilizar comodamente seus serviços”, descreve a sentença da Corte.

“Ao instalar assentamentos civis ao redor das bases, o Estado buscava mobilizar as 'mulheres de conforto' para levantar e melhorar o moral dos soldados estrangeiros, conservar a união militar necessária para garantir a segurança do Estado e objetivos econômicos tais como a obtenção de dinheiro em divisas”, continua, citada pela agência Sputnik News.

Ainda segundo o veredicto, o Estado da Coreia do Sul [VIDEO] é responsável pelo dano físico e psicológico causado às vítimas por tê-las submetido a tratamentos médicos prejudiciais e por ter desenvolvido toda a estrutura para a prática da prostituição, instalando assentamentos civis próximos às bases militares dos EUA [VIDEO].

O governo também justificou a iniciativa perante as prostitutas alegando que elas estariam contribuindo para o desenvolvimento econômico do país ao serem um canal de entrada de dólares na Coreia do Sul, que começava a se industrializar no início da década de 1970. Para isso, apelou aos “valores patrióticos” para convencê-las a continuar o trabalho.

Contraditoriamente à retórica “patriótica” do governo sul-coreano, no entanto, ele ofereceu a estas mulheres aulas de inglês e de “etiqueta ocidental” gratuitas, segundo a BBC.

Pobreza

Muitas das mulheres que aceitaram trabalhar como prostitutas para servir aos militares estadunidenses faziam isso para sair da pobreza que assolava grande parte da população da Coreia do Sul à época.

“Em 1972, fui a uma agência governamental de recrutamento e o homem que me atendeu me pediu para sentar e levantar. Ele olhou para mim e prometeu um emprego que me daria alimentação e um lugar para morar”, disse à rede britânica uma das 117 demandantes, que receberão entre 6.500 e 2.700 dólares de indenização do Estado.

Elas abriram processo no final de 2014 e pretendiam inicialmente receber 10 mil dólares cada uma. Outra das alegações era que o Estado sul-coreano as abandonou após terem prestado seus serviços na década de 1970.

Uma das ex-prostitutas que serviram nas bases dos EUA é Jang Young-mi, que hoje está na casa dos 70 anos e mora em um quarto de despejo. Ela contou à BBC que trabalhou em bordéis durante 20 anos e hoje vive na pobreza.

Em 2004 a prostituição passou a ser ilegal na Coreia do Sul e a prática é reprimida com força pelas autoridades.

Apesar disso, existem mais de 250 mil prostitutas no país, que viu um grande crescimento econômico desde os anos 1970 mas que foi acompanhado por uma crescente desigualdade social.

Muitas delas são idosas de até 70 anos, obrigadas a vender seu corpo para se sustentar, já que a seguridade social é insuficiente e a maioria dos jovens recebem baixos salários para sustentá-las.

“Eu estou com fome, não preciso de respeito, não preciso de honra, só quero fazer três refeições ao dia”, relatou à BBC uma pesquisadora sul-coreana, a respeito de uma conversa que teve com uma prostituta idosa de Seul.

O fenômeno da prostituição na terceira idade é uma humilhação maior ainda em uma sociedade asiática como a da Coreia do Sul, que tradicionalmente supervaloriza e respeita os mais velhos.