Nesta quarta-feira (07) foi realizada a reunião inaugural do grupo de trabalho do governo dos EUA, criado em janeiro pelo Departamento de Estado, que visa discutir propostas e implementar projetos para aumentar o acesso à Internet em Cuba.

A Força Operativa do Escritório de Transmissões para Cuba (OCB, na sigla em inglês) decidiu criar dois subcomitês a fim de avaliar o papel dos meios de comunicação e o acesso à Internet na ilha. Participaram desse encontro organizações pertencentes ou financiadas pelo governo dos EUA.

A medida, no entanto, não conta com o respaldo ou sequer a permissão do governo de Cuba. Pelo contrário: Havana acusa os EUA de tentarem, por meio deste novo projeto, subverter a ordem [VIDEO] em seu país para derrubar seu regime socialista.

Em nota, o Ministério de Relações Exteriores do país caribenho exigiu que os EUA parem “suas ações subversivas, intervencionistas e ilegais contra Cuba, que atentam contra a estabilidade e a ordem constitucional cubana”, reporta o site do órgão. O comunicado ainda instou Washington a respeitar a soberania [VIDEO] de Cuba, o direito internacional e a Carta da ONU.

O grupo de trabalho busca analisar “os desafios tecnológicos e as oportunidades da extensão de acesso à Internet em Cuba para ajudar o povo cubano a desfrutar de um fluxo de informação livre e não regulado”, de acordo com a agência de notícias Prensa Latina.

Mas o Ministério cubano rebateu, afirmando que os assuntos internos da ilha não são de competência dos EUA. “Cuba continuará regulando o fluxo de informação como é seu direito soberano e como é prática em todos os países, incluindo os EUA”, comunicou.

Projetos anteriores

Os jornalistas Iramsy Peraza Forte e Sergio Alejandro Gómez compilam no diário oficial Granma uma série de projetos executados pelo governo dos EUA para derrotar a revolução cubana por meios tecnológicos.

O primeiro foi a Rádio Cuba Livre, criada pela CIA em 1960, que transmitia sinal a partir dos EUA com propaganda contra o novo governo que havia chegado ao poder em 1959. De maneira semelhante, nos anos 1980 o governo norte-americano criou a Rádio Martí, que funcionava do mesmo modo. Em 1990, foi a vez da inauguração da TV Martí, que, assim como a rádio homônima, mantém suas emissões até hoje, embora sejam interceptadas pelas agências reguladoras da telecomunicação em Cuba.

Nos anos 2000, novos investimentos foram feitos pela Casa Branca, principalmente relacionados à disseminação de mensagens antigovernamentais através da Internet. Em 2014, a agência Associated Press revelou que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) estava por trás da criação em 2009 da rede social de mensagens instantâneas ZunZuneo, voltada para difundir convocações de protestos e ações antigovernamentais em Cuba.

Os organismos que participaram de tais projetos também estão envolvidos no grupo de trabalho recém-criado, como a USAID e o Escritório de Transmissões para Cuba – responsável pelas atividades da Rádio e TV Martí.

“Não há margem para a ingenuidade. A 'Força Operativa' que Washington propõe está ancorada nos preceitos da Guerra Não-Convencional, que busca desestabilizar governos soberanos apelando à manipulação da informação, à fabricação de falsos líderes e à geração artificial de descontentamento”, escreve Alejandro Gómez.

Internet em Cuba

Analisando no portal “Cubadebate” os propósitos do grupo de trabalho criado pelo governo americano, o também jornalista Randy Alonso Falcón diz que “ressalta também a particular preocupação que os EUA têm com o acesso dos cubanos à Internet, em um mundo onde quase 50 por cento da população ainda não têm acesso à rede e a seus benefícios”.

Cuba sofreu durante anos um atraso no desenvolvimento da Internet. O bloqueio econômico dos EUA sobre a ilha, iniciado em 1962, não permite que empresas estadunidenses façam comércio com Cuba, o que afeta também o ramo da Internet, uma vez que os principais mecanismos pertencem a companhias dos EUA.

Por exemplo, os cabos de fibra óptica utilizados para fornecer acesso à Internet são provenientes dos EUA, assim como os provedores de endereço IP. Os serviços de rede, como Google e Facebook, têm as mesmas dificuldades de introdução em Cuba por causa das leis norte-americanas sobre o bloqueio econômico.

Entretanto, o acesso à Internet tem aumentado exponencialmente no país caribenho nos últimos anos. O mesmo jornalista cita dados do governo cubano e do relatório “Digital in 2017 Global Overview”, que mostram que 40% dos seus cidadãos têm acesso à Internet, que funcionam no país 4,5 milhões de dispositivos móveis e que no ano passado Cuba foi a nação que experimentou maior crescimento de presença nas redes sociais.