Após ser formalmente denunciado por crime de corrupção, o presidente Michel Temer foi a público se pronunciar. Na sua defesa ficou mais que evidente que ele tenta esvaziar a gravidade das denúncias – tentando desqualificar as provas e até mesmo a pessoa do Procurador da República. Mas um ponto significativo foi a cartada da “legitimidade divina”.

“Não sei como Deus me colocou aqui” – foi o que o Presidente da República declarou na sua fala.

Essa frase pode parecer ser apenas uma expressão, sem muita intencionalidade concreta; contudo, não devemos esquecer que a Política é fundamentada por marketing. Lembre-se que, antes do pronunciamento, Temer se reuniu com um marqueteiro político.

O marketing político, assim como qualquer tipo de marketing, é basicamente usado para vender algo – neste caso é uma ideia. Mas qual ideia o presidente precisa vender?

Ou melhor, qual ideia ele tenta empurrar no consumidor (o povo)? É justamente aquela que inexiste na concepção popular: “Temer é um presidente legitimo”.

Quando ele afirma que as acusações feitas pela procuradoria são na verdade ataques políticos à instituição Presidência da República, Temer tenta vender a ideia da sua legitimidade. Desqualificando os argumentos jurídicos e deixando entender que as delações contra ele não passam de ataques políticos de uma oposição.

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Michel Temer Religião

Isso porque, um presidente criminoso é uma coisa e um presidente que sofre oposição política é outra coisa, ou seja, tem outro significado.

Nesse sentido, isso se segue de um segundo argumento: a missão. Isto é, a ideia que o presidente tem um dever para com o povo. Esse dever é um bem maior, algo que não pode ser deixado de lado. Por isso “o Congresso não pode parar” (tem que vender tudo, antes que o povo perceba que o Congresso é uma feira, um balcão de negócios).

A verdade é que Temer não tem uma missão porque ele não tem um programa de governo legitimado nas urnas. Assim, resta apenas evocar uma entidade espiritual para lhe garantir tal legitimidade: “Não sei como Deus me colocou aqui [...] Ele me deu um dever”.

Isso faz lembrar de um exemplo histórico paradigmático: a doutrina política e religiosa do “Direito divino dos reis”, no século XVII. Sua teoria central é que o rei não possui a legitimidade do seu governo pela vontade de seus súditos, mas sim pela vontade do próprio Deus.

Isso implica que a ideia de deposição do rei ou mesmo a limitação do seu poder são totalmente contrárias à vontade divina.

Por mais incrível que pareça! Esse subterfúgio metafísico sempre foi usado em “regimes democráticos”. Não é a primeira vez que o presidente se utiliza disso. Basta lembrar do dia da posse de Temer. Após a cerimônia de posse houve uma espécie de solenidade religiosa, um ritual onde ele foi “consagrado” pelos políticos evangélicos e católicos do Congresso.

Assim, na defesa de Temer, podemos constatar uma tentativa desesperada de legitimação do falso. Pois, com seus meros 7% de aprovação, não resta outra alternativa a não ser buscar sustentação para seu governo em argumentações sobrenaturais, naquilo que está para além do mundo real.

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