O ano era 2005. Dois anos após sua primeira posse como presidente eleito da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, começava a desenvolver ações importantes dentro do seu projeto de governo. E tinha no comando do Ministério da Fazenda um grande trunfo para a realização e a viabilização dos programas. Antonio Palocci, naquela ocasião, era o "Ronaldinho Gaúcho" do governo Lula.

E foi o próprio Lula que o alcunhou dessa forma. Em alta e no melhor momento da carreira vestindo a camisa do Barcelona, da Espanha, Ronaldinho Gaúcho brilhava nos gramados e era presença constante nos vídeos de grandes lances entre as temporadas de 2004 e 2005.

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Lula, que sempre acompanhou futebol, tratou de dizer que tinha um craque desse porte no governo.

"Por que eu mexeria no Palocci? Seria a mesma coisa que o Barcelona mexer no Ronaldinho Gaúcho.

Tem vezes que até o Ronaldinho erra, mas deixem o Ronaldinho jogar. O Palocci é uma pessoa com competência bem acima da média", disse Lula em uma entrevista dada em 2005, quando sustentava a continuidade do seu ministro da Fazenda no cargo.

É... sinais dos tempos. Mais de dez anos depois, as coisas mudaram radicalmente entre dois dos mais tradicionais membros do Partido dos Trabalhadores - PT. Em depoimento nesta quarta-feira ao juiz federal Sérgio Moro na ação que investiga um suposto recebimento de propina da Odebrecht, Lula deixou claro que está em pé de guerra e que rompeu com Palocci, o seu ex-Ronaldinho, a quem chamou de "mentiroso, frio e calculista".

Ocorre que, na semana passada, nessa mesma ação, Antônio Palocci prestou depoimento a Moro e fez graves acusações sobre a conduta de Lula.

Ao magistrado, o ex-ministro chegou a dizer que Lula e Odebrecht tinham um "pacto de sangue" e indicou que, de fato, o ex-presidente era beneficiário de verbas ilícitas concedidas pela empreiteira.

Palocci disse que Emílio Odebrecht, dono da empresa, se preocupou no final de 2010 com a proximidade do final do mandato de Lula - Dilma Rousseff, que desbancou o tucano José Serra no segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, assumiria em janeiro. Por conta disso, segundo Palocci, Odebrecht procurou Lula para acertar um "pacote de propinas".

"Foi exatamente nesse momento (transição entre os governos 2010-2011) que o Emílio Odebrecht procurou o Lula e fez uma espécie de pacto de sangue. Lula foi procurado por ele nos dias finais do governo e recebeu um pacote de propinas", acusou.

Lula reage e desmente

Como já era de se imaginar, Lula [VIDEO] negou veementemente as acusações de Palocci e disse que ele teve essa postura com a intenção de acertar delação premiada e reduzir o tamanho de sua condenação.

Críticas duras também não faltaram: o ex-presidente chamou o seu novo algoz de "frio e calculista".

"Pacto de sangue fez ele, mas com os seus delatores, os advogados deles e quem sabe até o Ministério Público", disse Lula, em referência ao citado "pacto de sangue" que teria sido feito com a Odebrecht no final de 2010.

Em 2h10 de depoimento a Moro, Lula se defendeu e atacou o ex-ministro: "Conheço bem o Palocci. Ele seria um simulador se não fosse um ser humano. De tão esperto, ele pode até simular uma mentira e fazer com que ela vire mais verdadeira do que a própria verdade. É médico. Ele é frio e calculista", frisou Lula.

Nesta ação, Lula, que negou ter "conversado com qualquer empresário" durante o seu governo, é investigado por suposta propina da Odebrecht para a construção do novo prédio do Instituto Lula, que não foi feita, e de um apartamento vizinho em São Bernardo - SP. O líder pretista tratou como "ilações" as três denúncias apresentadas pela Operação Lava-Jato.