Ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu uma longa entrevista ao jornal espanhol El Mundo onde, entre outros temas, tratou sobre a crise que levou ao impeachment de sua sucessora e colega de partido, Dilma Rousseff; das acusações que enfrenta na Justiça; da atual situação do país e das eleições presidenciais de 2018 [VIDEO].

Questionado sobre os motivos que levaram o Brasil a sair da situação de crescimento e esperança registrada ao fim de seu segundo mandato para o atual momento de crise e incertezas políticas, Lula afirmou que a explicação reside na credibibilidade, e que o país “jogou essa palavra mágica no lixo”.

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Falando sobre o que motivou as manifestações de 2013 e posteriormente a queda de Dilma, Lula disse que o maior equívoco do PT na era da ex-presidente foi “exagerar na Política de exoneração das grandes empresas”.

Apontando o segundo erro, Lula disse que Dilma “traiu o eleitorado que a elegeu em 2014”, pois havia prometido que não alteria a política de gastos, o que acabou ocorrendo e que, segundo o petista, levou ao fim da credibilidade do governo.

Ainda de acordo com Lula, o ano de 2015 foi “muito parecido a 1999”, quando, segundo as palavras do ex-presidente, “Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tinha uma popularidade de 8% e o país havia quebrado três vezes”. Para Lula, o que salvou FHC na ocasião foi o fato de que “o presidente da Câmara era Michel Temer, que ajudou a governar”. Ao apontar a diferença entre aquele ano e a crise enfrentada por Dilma em 2015, Lula afirmou que o PT “tinha Eduardo Cunha [na presidência da Câmara], que fez questão de barrar todas as reformas propostas por Dilma”.

Perguntando se havia se arrependido por não ter concorrido à presidência em 2014, Lula negou, dizendo ter sido “leal à democracia e à Dilma Rousseff”, que tinha o direito de tentar a reeleição.

Na mesma resposta, afirmou não ser “o tipo de pessoa que se lamenta”, e que deseja “voltar a ser presidente para mostrar ao mundo que o Brasil pode funcionar”.

Falando sobre as eleições de 2018, Lula disse que o Brasil precisa voltar a ser governado “pensando na maioria, e não em poucos”, afirmando que, caso eleito, poderá convocar um referendo visando revogar o testo de gastos de 20 anos estabelecido pelo atual presidente, Michel Temer (PMDB).

Falando sobre a condenação em primeira instância sofrida após decisão do juiz Sérgio Moro, Lula disse que o processo “é uma farsa”, e que “nem a Polícia Federal e nem o Ministério Público encontraram uma só prova” para lhe acusar. Também na resposta, afirmou que a decisão de Moro foi política, dizendo ainda que “a imprensa se nega a publicar que não há provas” contra si.

Confrontado sobre a delação do ex-ministro Antônio Palloci, que o implica em supostos acordos de corrupção, Lula voltou a negar as afirmações do ex-aliado, dizendo que a delação foi obtida através de pressão para incriminá-lo injustamente.

“Eles me julgam através da imprensa e eu me defendo com o povo”, disse Lula, citando que, mesmo com os ataques, permanece na primeira posição nas pesquisas de intenção de voto presidencial para 2018.

“Não se pode governar pelo Twitter”, diz Lula sobre Trump

A revista também perguntou a Lula sua opinião sobre temas internacionais, como o presidente Trump e a tentativa de independência da Catalunha, que deseja se desmembrar da Espanha.

Sobre o norte-americano, Lula disse que “é surpreendente que o presidente de um país do tamanho e da importância dos Estados Unidos fale de tudo”, citando ainda que Trump deveria delegar a opinião do país sobre determinados temas a secretários e funcionários do Estado. “Não se pode governar o mundo pelo Twitter”, alfinetou.

Falando sobre a Catalunha, Lula disse entender que o estado autônomo possuí “uma longa história” no que serefere ao tema de sua independência, mas que prefere “uma Espanha unida”.

Já no fim da entrevista, Lula foi questionado se o PT tem alguma chance de voltar ao Palácio do Planato com outro candidato, caso sua condenação seja confirmada em segunda instância, impugnando sua candidatura. “Nada é imprescindível”, disse o ex-presidente. “Há milhares de Lulas”.