Como uma de suas últimas heranças antes de deixar o posto de procurador-geral da República, Rodrigo Janot, três dias antes de deixar o cargo - que hoje é ocupado por Raquel Dodge - ofereceu a segunda denúncia contra o presidente da República, Michel Temer. Segundo Janot, o presidente e alguns dos seus principais ministros cometeram os crimes de organização criminosa e obstrução da Justiça.

Na avaliação da PGR, Temer e os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco lideraram um esquema de obtenção de propinas junto a ministérios e estatais. As defesas, como de costume, negaram veementemente e buscaram diminuir o peso da denúncia, que ganhará capítulo decisivo nesta quarta-feira.

Porque é nesta quarta-feira que o plenário da Câmara dos Deputados se reúne para decidir o futuro do presidente. Essa é a segunda denúncia votada pelos deputados contra Temer em um curto espaço de tempo. Na primera, que tratava do suposto crime de corrupção passiva, o Palácio do Planalto não teve dificuldades em barrar e conseguiram 263 votos a favor, o que deu uma grande tranquilidade no que diz respeito à manutenção da base aliada.

Para que o governo consiga novamente barrar a denúncia, e evitar com que ela tenha sequência no Supremo Tribunal Federal (STF), são necessários no mínimo 172 votos dos 513 deputados, de acordo com o que determina a Constituição Federal. Para que os oposicionistas consigam avançar a matéria ao STF, há a necessidade de dois terços dos votos.

Mas Temer tem intensificado as articulações nesses últimos dias justamente para evitar qualquer "surpresa" nessa votação.

Nesta segunda-feira, o presidente recebeu 13 deputados e mais três ministros para um jantar, onde foi feito um balanço e um prognóstico da votação de quarta-feira.

Planalto tem matemática favorável

De maneira oficial, o Planalto tem estimado que Temer vá receber 270 votos favoráveis, o que até superaria o número da primeira denúncia, que foi de 263. O deputado Beto Mansur (PRB-SP) é o contador "informal" de votos do Planalto e demonstrou otimismo quanto à votação em entrevista ao site da Exame:

"Entendemos que essa praticamente será a chance final de deputados aliados e partidos aliados mostrarem que estão alinhados com o governo. É um momento decisivo para definirmos nossa base. Se conseguirmos uma votação expressiva, isso será vital para as futuras votações como as reformas tributárias e da Previdência. Quem estiver fora do governo, estará fora. Quem estiver conosco, seguirá", prometeu.

Ainda que o cálculo atual de votos de sua própria equipe seja bastante otimista - prevento até além do necessário -, Michel Temer manterá as articulações até quando for possível.

O peemedebista [VIDEO] deixou a agenda desta terça-feira completamente livre para conversar com deputados indecisos e também "opositores", com a expectativa de angariar mais votos favoráveis.

Nas últimas semanas, o Planalto tem posto em prática várias estratégias do "agrado" de setores da Câmara para que possa ser recompensado nos votos desta quarta. Entre as medidas, os governistas prometem liberar mais emendas parlamentares, negociar cargos de segundo e terceiro escalão dentro do governo e aprovar demandas antigas de deputados, como por exemplo aqueles que fazem parte da chamada "bancada ruralista".

A oposição, por sua vez, monta a estratégia de "esvaziar" o plenário para que a votação não aconteça. O quórum mínimo necessário que a sessão seja iniciada é de 342 deputados. Os oposicionistas acreditam que a pressão popular contra algumas medidas de Temer e o próprio governo em si podem convencer deputados a não participarem da votação.