O assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes [VIDEO] na quarta-feira, 14, deveria chocar a toda uma população na medida em que as investigações apontam para a ação de milícias com o objetivo de calar a vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL. Contudo, a covardia do ato foi seguida por uma reação absurda por parte de pessoas que se apressaram em inventar histórias a respeito de Franco, a fim de questionarem sua integridade.

A quantidade de mentiras criadas acerca de Marielle chega a ser estarrecedora, ainda mais da maneira como elas vêm sendo divulgadas. As fotos compartilhadas juntamente às falsas notícias nem sequer são manipuladas para que as mulheres retratadas apresentem uma semelhança mínima com a vereadora.

Diante dos fatos, uma equipe jurídica formada por voluntários está rastreando postagens e compartilhamentos caluniosos contra Marielle para que os autores sejam devidamente processados.

A desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Marília Castro Neves, por exemplo, afirmou que Marielle estaria envolvida como o Comando Vermelho, mesmo sem ter acesso a qualquer documento que confirme isso (Marielle nem sequer é - ou foi - suspeita desse tipo de associação). Como jurista, a desembargadora não apenas cometeu uma infração ao caluniar a vereadora, mas também agiu de forma bastante antiética e nada profissional.

Depois de criticada, ela apagou a postagem, mas o registro da mesma continua a ser compartilhado nas redes sociais e também via WhatsApp. O partido de Marielle, o PSOL, informou que entrará com representação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra Marília.

O Movimento Brasil Livre (MBL), já conhecido por criar e espalhar notícias falsas por meio de sua página no Facebook, foi um dos que divulgou a postagem feita pela desembargadora.

O deputado federal Alberto Fraga, do DEM-DF, também divulgou narrativas mentirosas sobre Marielle Franco na forma de um tweet publicado na sexta-feira (16), em que afirmava que a vereadora teria engravidado aos 16 anos, que seria ex-esposa de Marcinho VP (existem dois traficantes conhecidos pelo apelido, um deles falecido em 2003 e o outro preso desde 1997), usuária de maconha, e que teria sido eleita pelo Comando Vermelho, além de ter defendido uma facção rival.

Marielle teve uma única filha, da qual engravidou aos 18 anos de idade e deu à luz aos 19. Nunca foi casada com um indivíduo chamado Márcio (na verdade, ela nunca foi casada), além de se identificar abertamente como lésbica. Ela vivia na Tijuca com sua namorada, Mônica, e a filha de 18 anos. Também nunca teve passagem na polícia por qualquer ato, tendo apresentado o nada consta no ato de sua candidatura.

O trabalho de Marielle na política desde 2006, quando se tornou assessora do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) sempre foi elogiado. Em entrevista para o jornal O Globo, Rose Vieira, mãe do policial civil Eduardo Oliveira, assassinado em 2012, conta que se tornou amiga de Marielle ao procurar ajuda do Comitê de Direitos Humanos no Rio. Responsável por prestar auxílio jurídico e psicológico a parentes de vítimas de violência, Marielle trabalhou com Rose Vieira para que as investigações do assassinato de seu filho fossem aceleradas e que o suspeito do crime, um colega de Eduardo, fosse indiciado.

Em meio à realidade brasileira, na qual políticos raramente têm uma conduta íntegra e correta, Marielle Franco era a exceção: não se envolveu em nada suspeito e nunca compactuou com a corrupção. Essa característica, por si só, já é o suficiente para gerar comoção e levar a manifestações condenando a violência contra pessoas pobres e negras, quer perfazem a maioria absoluta das vítimas, bem como o crime em questão.

Apesar disso, as circunstâncias de seu assassinato e sua identidade como mulher negra e favelada acabaram se tornando uma desculpa perfeita para que fosse difamada por indivíduos que não a conheceram, mas que enxergaram no caso uma oportunidade para, mais uma vez, deslegitimar um posicionamento político associado à esquerda e aos direitos humanos.