O governo dos EUA anunciou publicamente que não reconhecerá o resultado das eleições presidenciais que ocorrerão em maio na Venezuela e vem tentando desacreditar o processo eleitoral no país. Na semana passada, a rede de notícias Telesur informou que o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA em Caracas, Todd Robinson, visitou o candidato opositor Henri Falcón na tentativa de convencê-lo em não concorrer à presidência, já que sua participação legitimaria a eleição, uma vez que Falcón, do partido Avançada Progressista, é um dos principais nomes da política do país.

Esse seria mais um episódio na história de intervenções de Washington na política da América Latina e, em especial, da Venezuela, desde a ascensão do chamado “chavismo”, na virada do milênio.

A tentativa dos EUA de influenciar eleições e políticas de outros países não é uma prática que terminou junto com a Guerra Fria, escreve o acadêmico Timothy M. Gill em artigo no jornal norte-americano The Washington Post. “Na realidade, os EUA têm dado continuidade à sua antiga prática de trabalhar para desestabilizar governos de esquerda democraticamente eleitos na América Latina até os dias de hoje.”

A Agência Central de Inteligência (CIA) é o órgão mais famoso neste sentido.

Mas não é o único, lembra o professor-assistente de Sociologia da Universidade da Carolina do Norte. A Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o Fundo Nacional para a Democracia (NED) e o Instituto Republicano Internacional (IRI) têm abertamente influenciado governos pelo mundo para atender aos propósitos da Casa Branca através do discurso da “promoção da democracia”, diz Gill.

Nos últimos 15 anos a Venezuela tem sido insistentemente alvo dessas operações. Após o falido golpe de Estado de 2002 contra o então presidente Hugo Chávez, o antigo embaixador estadunidense em Caracas, Charles Shapiro, ofereceu um jantar aos ainda ativos opositores Henry Ramos Allup e Julio Borges, no qual deu conselhos para melhor combater o governo. A reunião foi documentada em telegrama oficial do governo dos EUA, desclassificado pelo Wikileaks e citado por Gill em seu artigo.

O autor recorda também do treinamento e assessoramento político por parte de dirigentes norte-americanos a opositores venezuelanos, organizados pelo IRI em meio às eleições de 2006.

A USAID também realizou mais de 3 mil eventos para dar orientações à oposição, “financiados pelo governo dos EUA com assistência logística de partidos políticos de oposição”, relata o acadêmico, pesquisador das políticas dos EUA em relação à Venezuela. “Alguns desses eventos em bairros pobres de Caracas eram disfarçados para parecerem orgânicos e autênticos – mesmo que disseminassem propaganda crítica sobre o governo de Chávez em uma tentativa de empurrar os moradores para a oposição.”

Com o passar do tempo, e mesmo tendo fracassado em seus objetivos finais de derrubar o governo, “os EUA não desistiram”.

“Pelo contrário, os contratistas ficaram mais ousados, abastecendo um florescente movimento estudantil anti-Chávez com doações, recursos para organização e treinamento. Finalmente, o governo venezuelano começou a investigar o financiamento da USAID no país, prontamente alguns contratistas destruíram seus arquivos e fugiram da Venezuela”, completa.

Entretanto, conclui Gill, esses esforços de minar e derrotar governos como os da Venezuela, Bolívia ou Nicarágua, não cessaram. “Mesmo esforços frustrados sem dúvida geraram condições mais conducentes para deslocar o pêndulo para a direita. E, de fato, nós observamos recentemente governos de esquerda [sendo] afastados na Argentina, Brasil e Honduras.”

Entre os milhares de documentos vazados pela Wikileaks sobre a política dos EUA em relação à Venezuela se encontra também um telegrama de 2006 que revelou a confiança da oposição venezuelana no governo norte-americano.

“De fato, líderes da AD [Ação Democrática, partido membro da coalizão opositora MUD] têm buscado explícita e repetidamente fundos e favores da Embaixada. Quando recusados por um oficial da Embaixada, eles pedem a outros”, diz a mensagem, assinada pelo então embaixador estadunidense em Caracas, William Brownfield.

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