Depois de anos de abandono, o centro da cidade de São Paulo vem, aos poucos, atraindo a atenção novamente como local de moradia. Muitos buscam nas moradias do centro a tão almejada qualidade de vida. Assim, morar no centro significa, muitas vezes, morar perto do trabalho, próximo de serviços e com ampla infraestrutura, e inclui uma ampla oferta de transportes públicos. Se tiver somado a issoconstruções multifuncionais, em que os mais diversos tipos de serviços e comércio estejam concentrados em um único local, melhor ainda.

Esse tipo de construções já fez parte da história do centro de São Paulo, tanto que muitas delas foram construídas ao longo do século 20. Tudo começou com a construção do Palacete Santa Helena.

Um projeto ousado

Construir um hotel. Esse era a ideia inicial de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, empresário e ex-presidente do Estado de São Paulo. No entanto, como já havia outros hotéis na região, descartou essa ideia e apostouem algo ousado na época: reunir em um mesmo local uma ampla variedade de comércio e serviços.

Para tanto, incumbiu a família Assad a construir o Palacete nos moldes que desejava e designou como arquiteto Giacomo Corberi, que foi o responsável por duas alterações: incluiu na construção um cine teatro e um cinema, oCineMundi.

Praça da Sé ganha sua primeira construção multifuncional

O Palacete Santa Helena ganhou esse nome porque foi construído na Praça da Sé, onde havia a antiga Igreja da Sé, onde atualmente se encontra o Prédio da Caixa Econômica Federal, daí vem o Santa; e com Helena, Albuquerque Lins homenageou sua esposa.

Após três anos de construção, foi inaugurado em 1925 com sete pavimentos e contendo lojas no térreo, duas sobrelojas e pavimentos superiores abrigando 276 lojas e um cine teatro e cinema amplos; basta lembrar que somente o cine teatro tinha 36 frisas, 42 camarotes e 1500 lugares. Enfim os paulistanos conheciam a primeira construção multifuncional.

Inaugurado em 1925, a elite paulistana já começava a migrar para o outro lado do viaduto do Chá, na região da República e Campos Elíseos.

Com isso, o Palacete ganhou um novo perfil de usuários e locadores de suas salas: o sindicato dos metalúrgicos funcionou no local durante 20 anos, de 1934 a 1954, e diversas organizações políticas ligadas ao Partido Comunista. A partir de 1934, o Palacete ganhou uma outra clientela: os artistas que montaram ateliês e fundaram o clube dos pintores, entre eles Aldo Bonadei, Alfredo Rizzotti, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, entre outros.

A decadência

Esse movimento de trabalhadores e artistas nas belas e imponentes instalações do multifuncional Palacete Santa Helena durou até o início dos anos 40, quando os sindicatos e os ateliês foram para lugares maiores e, assim, diversas salas ficaram vazias e os cinemas que passavam superproduções passaram a exibir filmes popularescos. Sem ter como manter as instalações, devido à falta do dinheiro do aluguel das salas, os herdeiros de Albuquerque Lins e de sua esposa, Helena de Souza Queiroz, venderam o Palaceteao Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, em 1944, e então ele experimentou uma ampla decadência até em 1971, quando o Metrô comprou o prédio para em poucos meses destruí-lo completamente para a construção da Estação Sé.

Qual seria a sua função hoje

Desde que o Palacete Santa Helena foi destruído em 1971, muito questionamento é feito se, de fato, havia a necessidade realmente de destruir aquela beleza arquitetônica para construir uma estação do metrô. Certamente se ele estivesse de pé até hoje, das duas uma: ou seria, por sua natureza multifuncional, um espaço ideal para atender a necessidade dos tempos modernos de concentrar em um único local comércio e serviços variados, sendo o cinema um importante espaço para apresentação de musicais, algo tão em voga atualmente; ou então, o que seria mais preocupante, acabaria sendo mais um local histórico invadido por sem-teto com a conivência do poder público. Fica essa dúvida no ar.

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