Se a moda pega, a coisa pode ficar bem pior do que já está (por mais difícil que se possa imaginar isso). Os aumentos expressivos que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) aprovou ontem (03) estão, na verdade, sendo pagos em dobro! Para residências, os aumentos aplicados variam de 21,25% a 39,49%. Mas se listarmos todos os aumentos de energia anunciados no mesmo dia (residência, indústria e comércio), teremos uma média de 45,7%.

Não só os números surpreendem, mas também a competência do Governo na agilidade: os aumentos entram em vigor imediatamente.

Uma declaração anterior do Governo pode explicar melhor o que está acontecendo. Conforme anúncio feito pelo novo Secretário do Tesouro Nacional, Marcelo Saintive, a partir desse ano o Governo não repassará mais o subsídio financeiro habitual ao setor elétrico. Num café-da-manhã com jornalistas, na terça-feira de 13 de janeiro, ele confirmou o corte de 9 bilhões de reais ao setor.

Naturalmente, esta conta teria de ser paga por alguém ao setor elétrico. Mais uma vez, o bolso do trabalhador é intimado.

O que não se comenta é que, se este valor que pagaremos a partir deste ano (ou melhor, deste mês) era entregue pelo Governo às companhias de energia elétrica, já éramos nós que pagávamos. Visto que o Tesouro Nacional é alimentado pelo tesouro individual de cada um de nós por meio dos inúmeros impostos que pagamos.

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Opinião

Impostos estes dos quais não vemos o retorno.

A chamada crise no setor elétrico é uma prova concreta disso. É o mesmo que depositar o dinheiro do aluguel da casa que moramos na conta bancária da imobiliária responsável pelo imóvel, e ela não repassar o dinheiro ao proprietário. Teríamos que pagar de novo? Visto que a imobiliária é a responsável por essa administração financeira? Sim, ela poderia pagar o aluguel de outra forma, por meio do equilíbrio na administração de sua empresa.

Ou o Governo vai deixar de arrecadar do povo os 9 bilhões de reais? Não. Pagaremos o valor ao Governo e o pagaremos novamente às empresas do setor elétrico.

E a matemática fica pior ainda quando sabemos que o aumento que cobriria esse rombo não chegaria a 10% de reajuste. Mas temos que somar ainda o aumento "normal" de cada ano e mais a estrela do ano: a chamada crise da água. Claro, uma vez que a água está escassa, energia também fica, afinal precisamos de água para gerar energia elétrica.

Mas com tanto acúmulo disto ou daquilo, desconfio que a porcentagem maior atribuída neste aumento abusivo e totalmente anticonstitucional (até surreal, eu diria, considerando a distribuição de renda do pais) é a porcentagem responsável pela incompetência de nossos administradores e a da corrupção. O comércio em crise, a indústria em crise, a falta de água, a falta de energia, o BNDS... Ah, o BNDS...

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