Um texto que se inicia reafirmando um panorama extremamente pessimista para a mulher baseando-se em argumentos arraigados na própria estrutura machista e patriarcal só poderia dar pano para manga. Se o machismo parecia não incomodar Fernanda Torres, como afirma no polêmico texto “Mulher”, escrito para a coluna #AgoraÉQueSãoElas – blog da Folha, o feminismo certamente foi a pedra no seu sapato essa semana.

Ao afirmar chavões como a mulher ter de “se manter jovem e desejada”, ser incapaz “de se desapegar das crias” (resultado de seu “relógio biológico certeiro”) e que “a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma”, a atriz conseguiu carimbar sobre ela a impressão (?) alienada que ela própria se outorga ao definir os “machões gloriosos” da geração que a criou como “irresistíveis até nos seus preconceitos”.

Ora, Fernanda, tenho certeza de que todas as mulheres um pouco mais esclarecidas e conscientes do mundo que as cerca se sentiram altamente representadas pelas críticas que taxaram o texto de classista e alienado, uma verdadeira afronta às mulheres e um desserviço às iniciativas de politização dos movimentos feministas. Como a própria atriz escreve mais tarde no artigo “Mea Culpa”, em franca (assim esperamos!) reflexão sobre as duras e necessárias críticas às suas colocações, esperava-se outro tipo de posicionamento de uma voz feminina com espaço para se fazer ouvir.

Não perca as últimas notícias!
Clique no tema que mais te interessa. Vamos te manter atualizado com todas as últimas novidades que você não deve perder.
Relacionamento

Não é preciso nem dizer que uma coluna que se chama “Agora é que São Elas” deveria agir em prol do empoderamento da mulher e da sua emancipação. Mas talvez a sua produção por outras mulheres brancas de classe alta tenha prejudicado a avaliação do texto antes de ser publicado, já que, em meio a tantas frases de efeito e poéticos “homens fêmeas”, nada parecia saltar aos seus olhos. Não estariam eles enxergando o mundo do mesmo ponto de vista dos olhos da atriz?

A experiência pessoal de Fernanda Torres é de exceção. Ela sabe, afirma isso e diz não querer ser inimiga dos movimentos feministas. O seu texto de ratificação é um pedido de desculpas e uma promessa de novas e maiores reflexões. Que reverbere pelos seus espaços. Que sirva de alerta. E, principalmente, que se transforme em movimento.

Para encerrar (ou melhor, para recomeçar), evoco as palavras de Peter Tosh: “Todo mundo está chorando por paz / Mas ninguém chora por justiça / Eu não quero paz/ Eu preciso de direitos iguais e justiça”.

Não perca a nossa página no Facebook!
Leia tudo