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Há tempos os que apoiam Dilma se referem a essa obstinação em levar a cabo um impeachment, sem a presença do crime de responsabilidade, como "golpe". A grande mídia evitava a palavra, mas, agora, que ela se tornou inescapável, a pronuncia com ironia, como se houvesse nela qualquer exagero e como se fosse invenção descabida da presidente e de seus aliados.

Talvez esperassem que Dilma jogasse a toalha rapidamente, mas ela resiste bravamente. À medida que resiste, força seus adversários a agir de forma mais agressiva, jogando luz em uma linha de pensamento que, até algum tempo atrás, se mantinha e se procriava nas sombras.

Recentemente um oposicionista, em entrevista à Globo, disse que Dilma tinha duas opções: "ou a renúncia, ou o impeachment". Algo similar a oferecer a alguém o assassinato ou o suicídio forçado.

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Essas afirmações, feitas em rede nacional, escancaram a intenção da oposição. Querem que ela saia e procuram um dispositivo legal que ampare seu desejo.

Entre as recentes manifestações explícitas de falta de noção democrática, uma se destacou: a entrevista de José Serra ao jornal O Estado de São Paulo. Nela, Serra dá como praticamente certo o impeachment, expõe planos já bem traçados para a atuação de Michel Temer como presidente e diz que seria melhor para o país que Dilma renunciasse. Serra diz textualmente: "Eu penso assim desde o início do segundo mandato dela." E vai além: diz que a população cobrará de quem "ajudou a remover a presidente" uma boa performance. Fala de um "ministério surpreendentemente bom" e rejeita a ideia de uma "caça às bruxas". Como se tudo isso não bastasse, esse homem que quer a saída da presidente por considerá-la o cerne da crise, descreve um cenário econômico bom! Diz Serra: "Nós não estamos com problemas de balanço de pagamentos.

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Temos reservas abundantes, que cobraram alto custo em termos de endividamento público, mas já estão aí. Não há gargalo externo e a taxa de câmbio está em um nível bom. O câmbio vai exercendo papel favorável no sentido de aumentar a competitividade das exportações." Serra parece afoito para atuar nesse cenário favorável. Só não quer a presidente incomodando.

A entrevista de Serra provocou enorme revolta na senadora Gleisi Hoffmann, que se pronunciou , denunciando o que chama de acordão e a tentativa da oposição de fazer parecer que entregando a cabeça de Lula e Dilma em uma bandeja aos brasileiros, tudo estará resolvido, como se só o PT tivesse corruptos.

O deputado Wadih Damous, do PT-RJ, também fez um discurso didático sobre a necessidade de se respeitar a lei ordinária 1079 de 1950, que regula o processo de impeachment. E também se mostrou indignado com Serra e seu descarado desejo de poder.

Essas manifestações públicas de repúdio a um golpe se espalham pelas redes sociais instantaneamente.

Cada vez mais o povo se informa por vias alternativas, que não a grande mídia. Cada vez mais a população tem elementos para julgar por si mesma a legalidade de um processo de impeachment nessas condições. Quem deseja a saída de Dilma por não tolerar tudo o que ela representa não está mais conseguindo se esconder da informação. Será preciso encarar de frente uma escolha: defender ou não um golpe. Usar a palavra correta nesse momento é muito importante. Porque é sob eufemismos que se escondem todos os grandes vícios de uma sociedade hipócrita. E enquanto não chamamos as coisas pelos nomes que elas têm, os vícios se perpetuam, e criminosos agem livremente.