As sessões da Comissão do Impeachment denunciaram a doentia postura mental dos opositores de Dilma. Alguns momentos foram impressionantes. Antes da defesa de José Eduardo Cardozo, instalou-se um clima de guerra. A oposição não aceitava que o Advogado Geral da União a defendesse. Houve bate-boca e gritaria. Na sessão seguinte, Orlando Silva, vice-advogado Geral da União, entrou na Comissão e os oposicionistas o expulsaram, aos gritos.

Wadih Damous alertou que aquilo era cerceamento do direito de defesa e foi vaiado e tratado com uma animosidade própria de torcidas organizadas. Mas o que eles queriam era isso: cercear o direito de defesa da presidente. Nada de novo. Eles a cerceiam em todos os sentidos desde a reeleição. Negaram as urnas, obstruíram seus planos, não a ajudaram, atrapalharam muito e destruíram qualquer possibilidade de superação da crise.

E acreditam que, contra ela, se pode tudo. Talvez possamos recorrer ao homo sacer, figura obscura da lei romana, para tentar entender tudo isso.

O homo sacer é objeto de estudo do filósofo Giorgio Agamben e também é a figura à qual o sociólogo Zygmunt Bauman recorre para entender a condição dos refugiados. As reflexões de Bauman sobre a relação entre os refugiados e a elite global nos possibilitam uma série de analogias pertinentes à relação da oposição com Dilma.

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Bauman observa que, diante da insegurança própria do mundo moderno - problema complexo -, democracias do mundo todo usam imigrantes estrangeiros como bode expiatório. O refugiado é o forasteiro, o "diferente", que é oferecido à angustiada elite global como o culpado a quem se pode encarcerar e, assim, resolver todos os problemas de insegurança do mundo. Onde quer que esteja, é indesejado. Seu país de origem não o quer de volta.

Não tem mais um passado, nem a perspectiva de um futuro. Seus valores são aniquilados. Privado da cidadania, perde todos os direitos. É suspeito e desperta ressentimento. Bauman o define como "impensável", e, no limite, há quem não veja razão para considerar seu extermínio crime passível de punição, pois sua vida é uma "vida que não vale a pena ser vivida", conceito introduzido no livreto Permitindo a destruição da vida que não vale a pena ser vivida, de Alfred Hoche e Karl Binding.

O refugiado, como o antigo homo sacer, é "matável". E "matável" por qualquer um.

O Brasil sofre desde sempre com um sistema que favorece a corrupção e que se mantém por conta dos que dele se beneficiam. Dilma chega a esse contexto problemático, corrupto e predominantemente masculino, como a "forasteira". Enfrenta o combate à corrupção, defende bandeiras progressistas e representa o empoderamento da mulher.

E é reeleita! Tentam invalidar sua reeleição e, perdedores, passam a impedir que aja, mantendo-a sob pressão a ponto de colocar em risco seus valores. Era previsível que a usassem como bode expiatório para os problemas do Brasil, e o fizeram. A usurpação de seu mandato pela direita é uma resposta simplista a uma elite treinada por essa mesma direita para vê-la com desconfiança e ressentimento e para canalizar para ela sua insatisfação. A excepcional resistência de Dilma exacerba o ódio da oposição, levando-a ao delírio de que "qualquer um", até mesmo o réu Eduardo Cunha, pode "matá-la politicamente", sem qualquer punição. Querem que ela seja como o homo sacer. Que não tenha qualquer direito e que possa se "eliminada" sem comoção social. Não se dão conta de que há mais de 54 milhões de brasileiros cuidando dela e da democracia.

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