Em agosto do ano passado, Michel Temer disse que seria preciso que alguém tivesse "a capacidade de unir o país" e, a julgar por suas declarações de agora, notamos que ele se vê justamente como esse alguém. A carta que enviou ao gabinete de Dilma ao fim de 2015, propositalmente "vazada", era um prenúncio do que enfrentaríamos a partir das declarações, então tornadas públicas, de seu ressentimento para com a presidente.

Desde então, a situação da Política brasileira tem tomado rumos que, apesar de esperados, surpreendem pela velocidade e intensidade com que estão ocorrendo. Isso se deve principalmente à vontade de Eduardo Cunha de beneficiar a si próprio e a seu partido, colocando Temer no poder para se tornar, ele mesmo, o próximo na linha sucessória. E antes mesmo do processo terminar, o vice-presidente já tem comemorado uma "vitória" certa.

Aqueles que defendem o Impeachment usam sua constitucionalidade como justificativa para dizer que o processo é democrático, sem reconhecer, no entanto, que as pedaladas fiscais são uma estratégia de governo bastante comum - usadas mais de cem vezes por Fernando Henrique quando estava na presidência. Até o momento, não existe comprovação de envolvimento direto da presidente Dilma em esquemas de corrupção e sua incompetência administrativa não é o suficiente para que o impedimento ocorra.

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Mas não sejamos ingênuos: se o PT estivesse na oposição e o governo nas mãos de qualquer outro partido, haveria um pedido um impeachment também. O histórico da política brasileira não é mostrado, em sua totalidade, nos veículos de comunicação, mas desde a era Collor foram entregues 61 pedidos de impeachment que não chegaram à Câmara. Fernando Henrique Cardoso sofreu 17 denúncias solicitando o processo de sua destituição, Lula, 34 e Dilma, 10, somente em seu primeiro mandato.

Na verdade, isso mostra que é fácil solicitar a cassação do mandato de um presidente: basta que ele tenha cometido infração penal comum (como roubo direto ou homicídio) ou crime de responsabilidade (relativo à sua atuação como governante) - e, no caso desta última motivação, qualquer cidadão pode entrar com o pedido.

Se, por um lado, ninguém questiona a legitimidade do impeachment, por outro, quem se coloca contra a cassação de Dilma expõe a grande armação forjada pelos peemedebistas uma vez que nem Temer nem Cunha teriam condições de assumir a presidência, pois são acusados, ambos, de ações bem mais graves que as pedaladas fiscais de Dilma.

Assim, se o impedimento ocorrer e Michel Temer tiver reais motivos para comemorar seu novo e almejado cargo, resta-nos saber se alguém estará disposto a entrar com um pedido de impeachment também contra ele. Se isso não acontecer, uma coisa ficará clara: o combate não é contra a corrupção.

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