O governo interino de Michel Temer tem adotado um discurso, no mínimo, esquizofrênico, com a mensagem aos pobres para esquecerem a crise e trabalharem, ao mesmo tempo em que adota outro discurso, de que o país está em crise, de que há um rombo deixado pelo governo deposto de Dilma Rousseff, e que será preciso passar medidas extremamente impopulares, como privatizações, corte nos programas sociais como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, assim como a destituição do Ministério da Cultura e a diminuição do SUS, atendendo, obviamente, aos interesses do empresariado.

Analisando esse discurso paradoxal, outro Michel, o filósofo francês Foucault, já tinha dito que "os enunciados formulados em discursos anteriores e historicamente deslocados, constituem conjuntos de novos discursos nos quais mantêm relações não explícitas aos sujeitos desses discursos." Isso forma o inconsciente, não do sujeito enunciador, mas “da coisa dita”.

O sujeito sai de cena e o que fica é o que foi dito, como quase uma verdade. E está dito, não é mesmo?

A publicidade e a mídia corporativa, funcionam em certa parte como difusores e multiplicadores desses discursos que, mesmo difusos, atendem interesses claros: defender pautas do empresariado e cortar direitos trabalhistas. O linguista, crítico social e professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), Noam Chomsky, considerado um dos maiores intelectuais vivos e defensor da ideia de que o Brasil sofreu recentemente um golpe "brando", já havia cravado: "a propaganda está para a democracia assim como o cassetete está para a ditadura”.

A quase esquizofrenia desse discurso e, que pela agressividade acusativa torna-se quase um diatribe moral, esquece que o governo deposto teve muita dificuldade para governar desde o seu início, e que desde 2014, ano da reeleição, Dilma simplesmente não governou, tendo suas pautas sempre barradas no congresso, fagulha do golpe.

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Aliás, ele não esquece. Se faz esquecer.

E os pró-golpe, que não querem ser golpistas, parece que têm sofrido, coincidentemente, de uma espécie de epidemia de Alzheimer, estranhamente contagiosa. E o povo que mais precisa, vai lembrando de tudo e sofrendo ainda mais.