A morte por afogamento do ator Domingos Montagner,  o Santo da novela "Velho Chico", ocorrida ontem (15), pode não ter sido causada pelo curso natural do Rio São Francisco.

Os relatos do incidente apontam que a atriz Camila Pitanga e o parceiro de trama resolveram mergulhar no rio para aproveitar a folga das gravações em um local conhecido como Prainha do Canindé, no município de Canindé do São Francisco, na jusante da Hidrelétrica de Xingô.

Em entrevista à UOL, o delegado de Canindé, Antônio Francisco Oliveira Filho, afirmou que "os dois entraram na água e a correnteza ficou forte de repente. Camila nadou rápido e conseguiu abraçar uma pedra.

Ela chegou a ver o Domingos nadar contra a correnteza, mas ele cansou e afundou".

Brent Millikan, cientista americano radicado no Brasil e diretor do Programa Internacional Rivers-Brasil, fez uma postagem em sua rede social alertando que fenômenos de mudança de correnteza repentina, como o descrito pelo delegado, são recorrentemente notados pelas populações tradicionais residentes no entorno de hidrelétricas e que a explicação para essas alterações está relacionada às barragens instaladas no curso d'água.

O militante afirmou: "No Brasil, é muito comum que as operadoras de hidrelétricas soltem água de repente pelas turbinas para atender a um pedido do ONS (Operador Nacional do Sistema) ou para vazar o excesso de água na época chuvosa. Isso cria uma situação de grande insegurança para quem está rio abaixo".

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Millikan disse ainda que esta possibilidade deve ser considerada nas investigações a respeito da causa da morte do ator. "Os indígenas Juruna da Volta Grande, que moram logo abaixo da barragem Pimental, do Complexo Belo Monte, já perderam barcos com 'tsunamis artificiais' e não deixam mais as crianças brincarem sozinhas na beira do rio", diz ele. Há ainda registros de que "na hidrelétrica de Lajeado no rio Tocantins, [...] a operadora soltou água de repente para atender pedido do ONS, provocando uma piracema que levou à morte de toneladas de peixes, quando chegaram ao muro de concreto (a escada de peixes não funciona) a operadora tinha reduzido a vazão e ficaram agonizando em poços de água quente, até morrer".

Brent Millikan

Bacharel em Estudos Ambientais e Estudos Latino-Americanos da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, e mestre em Geografia pela Universidade da Califórnia, Berkeley. É diretor de programa da International Rivers-Brasil e apoia movimentos sociais dos povos atingidos pelas barragens. Já trabalhou com instituições acadêmicas, movimentos sociais, o Ministério do Meio Ambiente e ONGs como a 'Amigos da Terra - Amazônia Brasileira'.