A Rede Globo tem sido líder de audiência praticamente desde a sua fundação, em 1965. O seu desenvolvimento coincidiu com a popularização da televisão no Brasil e, com uma programação moderna, variada e voltada para um um público cada vez mais encantado com esse novo meio de comunicação, a Globo se consagrou.

O tempo, o surgimento de outros meios de comunicação e as novas gerações, porém, colocaram sob suspeita a influência da Rede Globo na cultura televisiva dos brasileiros. O canal foi ganhando a fama de ser uma fábrica de informações e entretenimento de conteúdo manipulador.

No início, as novelas eram o alvo, vistas pelas primeiras gerações de telespectadores mais críticos como deturpadoras da moral e dos bons costumes. Já para a "geração Y" (nascidos de 1985 em diante), filhos da era digital, a moda é difamar a Globo pelo seu jornalismo fake, alienante e elitista.

Conspiração midiática da Rede Globo?

Sim. A Rede Globo manipula, distorce e corrompe os telespectadores desde sempre com suas novelas e mais ainda com seu jornalismo parcial, exagerado e mentiroso. Seus destaques são para as figuras da elite, políticos de direita e empresários, enquanto persegue e deprecia os representantes das classes mais humildes.

Em plena crise econômica, ela centra fogo no ex-presidente Lula e sua gente, enquanto exalta os seus rivais políticos, ricos e aristocratas, promovendo-os ao poder com a ajuda do seu exército de teleguiados Brasil afora. A Vênus Platinada, como é chamada, destrói a família, levanta e derruba governos, imbeciliza a todos que se deixam hipnotizar pela programação. Tudo de acordo com suas conveniências neo-liberais pérfidas. Não informa, deforma a percepção do seu auditório já cativo e incapaz de raciocinar.

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De fato, a Globo seria uma força dos "illuminati" (um suposto grupo de poderosos que dominaria as grandes empresas mundiais).

Não. Nem anjo nem demônio, a emissora é uma instituição humana e certamente erra e acerta. O público é livre para acessar outros canais e outras mídias, buscar informações complementares e ser mais crítico. O masoquismo conspiratório, no entanto, condena essa população (ironicamente até os críticos anti-Globo) ao resumo jornalístico feito pela TV carioca. "Zapear" é preciso.

Ao lidar com a política e seus desdobramentos, a Globo transmite e reporta o que também se veicula nas outras emissoras abertas (Cultura, SBT, Record, Rede TV, Band), é só usar o controle remoto. O Jornal da Cultura, por exemplo, costuma tratar de todo o imbróglio político nacional alternando as reportagens com opiniões de especialistas que dissecam e escarafuncham os fatos muito além das outras emissoras. O destaque em todas elas sobre os eventos políticos e seus personagens é de exaltação ou depreciação, não por interesses mesquinhos, mas porque a realidade exige.

Evidente que todas essas emissoras não estão em conluio com a Globo para manipular o país.

Se as reportagens globais relativas às novidades tecnológicas culturais, científicas, parecem rasas ou irrelevantes, oras, isso se deve aos meios digitais que se antecipam na publicação de matérias com mais detalhes e aspectos que, ao chegar à TV, já perderam o impacto.

Provavelmente. A Globo, antes de ser um centro de entretenimento e jornalismo, é uma máquina de publicidade e vendas, como, aliás, toda corporação.

Contratos com os anunciantes de produtos, impõe a ela certas diretrizes nas suas produções. Como acontece a qualquer empresa, ela tem de adequar os seus produtos e dinâmica de produção aos interesses daqueles que movem a máquina dos negócios. Quando vemos propagandas, seja nos intervalos seja nos programas, de modo explícito ou implícito, dá para ter uma ideia de como as coisas funcionam. É assim em todo mundo desde que a televisão existe.

Produzindo uma teoria da conspiração

O que leva as pessoas a terem uma percepção tão doentia da realidade a ponto de inventarem teorias da conspiração em geral, e com a Globo em particular?

A pergunta de qualquer pessoa que se considera minimamente razoável deveria ser: "Por quê?".

As teorias da conspiração são fruto, em primeiro lugar da paixão, da necessidade de que a realidade funcione e esteja sempre sob controle. Envolve autopromoção, individual ou coletiva, sensacionalismo, e são deflagradas muita vezes pela falta de informações suficientes. Um exemplo? O vídeo em que supostamente Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, ofende o povo brasileiro. Na verdade, o vídeo é de 2014, e a ofensora é a jornalista Deborah Albuquerque Chalem falando contra a eleição de Dilma Rousseff.

Mas quais as condições produtoras de tais bizarrices?

O psicólogo e cético Michael Shermer nos explica em seu livro "Cérebro e Crença" como se estruturam e se desenvolvem tais ideias:

Tendência confirmatória

É a tendência de de só buscar evidências que confirmam o pensamento que já se tem, e caso não se confirmem, ignorar ou reinterpretá-las para que legitime a ideia originalmente proposta.

Os anti-Globo dizem que Lula é perseguido e que Temer é querido pela Globo. Mas o canal vem cobrindo tanto o envolvimento do ex-presidente perante a "Operação Lava Jato", como esses dias (via "O Globo"!) divulgou informações sobre o presidente Temer ter sido pego em gravações suspeitas.

"Oras, como assim? A Globo traindo o seu aliado e político de estimação? Não pode ser. Deve haver uma intenção secreta que vai provar que tudo foi arquitetado para parecer uma reportagem imparcial. É tudo armado.", raciocinam.

Tendência da atribuição

É a tendência de dar às próprias escolhas razões melhores do que aquelas que se atribuiria às escolhas alheias.

"Minhas escolhas são racionais e ponderas, já os outros escolhem por puro sentimentalismo". A internet seria a fonte de informações para pessoas inteligentes e críticas, já a televisão (leia-se: Rede Globo!) é para os ignorantes, tolos e influenciáveis.

Shermer testou essa tendência com a crença em Deus, na qual os que diziam acreditar o faziam devido à "perfeita concepção do universo", mas atribuíam aos outros como motivo o "medo da morte". Como se vê, razões intelectuais seriam superiores às razões emocionais.

Tendência da autojustificação

Racionalizar decisões depois do fato para se convencer de que foi a melhor decisão tomada, mesmo diante de evidências em contrário.

Nos anos 1990, surgiu o boato de que a apresentadora Xuxa teria feito "pacto com o Diabo". Nunca houve qualquer evidência. Mas, teve aquele filme em que ela, ainda jovem, teria relações sexuais com uma criança, e isso é moralmente ruim.

Logo, coisa do mal. Assim, o pacto diabólico não se deve a um ritual específico mas a toda uma vida de desvios morais.

Tendência do custo irrecuperável

É a tendência a acreditar em algo por causa do custo e do tempo investido nessa crença.

Por mais que a ideia se revele errada e sem fundamento (como o exemplo da Xuxa), como abandonar algo a que tanto alguém se dedicou em elaborar e disseminar? Leon Tolstói dizia que mesmo os homens de ideias complexas dificilmente aceitariam uma verdade se essa os obrigasse a admitir a falsidade de conclusões sobre ideias que tiveram tanto trabalho e prazer de explicar e disseminar entre colegas e amigos.

Como se vê, funciona como uma espécie de recompensa emocional.

Daí, a tendência do rebanho (seguir a maioria) e a tendência do grupo (valorizar as informações do próprio grupo conspirador) dão cabo de tocar a teoria conspiratória adiante.

Enfim, é fruto da paixão, termo derivado do grego pathos: doença.

Exigir independência de uma empresa, ou de qualquer instituição com amarras político-sociais e econômicas é o cúmulo da leviandade. Qual empresa, seja de qual for o ramo, é totalmente comprometida apenas com os próprios interesses?

As pessoas comuns, certamente mais livres, não são autodeterminados.

Seguem regras, leis e interesses do mercado que faz com que se submetam a desmandos de toda ordem.

Isso significa que a Rede Globo, e as corporações em geral, não tenham lá seus esqueletos no armário? É claro que não. Certamente uma organização desse porte usa e abusa da sua influência para interferir onde bem quer e pode, visando seus interesses. Um líder no mercado e não vai querer perder o seu posto.

As críticas? Ou vem das suas concorrentes diretas, como a Rede Record, que num embate "Davi contra Golias" midiático, vê nela um gigante a abater para lhe tomar o lugar (e para isso tem adaptado a sua programação bem aos moldes da rival) ou de redes menores, cujas atrações fazem da crítica ao mundo de entretenimento global o seu ganha pão.

Engana-se quem pensa que o estilo de ser e fazer televisão de "Rédi Globu" (como diria o irônico personagem militante anti-globo de Marcelo Adnet), é um fenômeno midiático tupiniquim. Ela apenas segue uma receita que funciona desde os anos 1950 em todo o mundo.

Cabe aos espectadores tradicionais, como também aos observadores digitais, a disposição de ampliar as suas fontes de informação, desenvolver o senso crítico e assim saber separar o joio do trigo em todos os meios de comunicação. Tanto na mídia tradicional como nas digitais, boatos infundados, críticas apaixonadas e teorias conspiratórias não são expressões de cabeças realmente pensantes.

Uma visão equilibrada, objetiva e imparcial será sempre a melhor escolha ao lidar com os fatos, ainda mais nesse campo de batalha que é o mundo da informação.

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