Quando falamos dos afetos, sejam eles no Amor, na amizade ou nos Relacionamentos interpessoais em sua totalidade, corriqueiramente acabam se tornando sinônimos de incompreensão, dúvida e tabus dos mais variados tipos. Ao longo do processo histórico, o amor e a sexualidade foram palcos de tensões, agressividade, poder, contos, poesias, crenças religiosas e até influências econômicas e políticas.

Compreender o amor nunca foi tarefa fácil a quem se dedicou estudar e desvendar uma palavra que aparentemente é curta, mas ao ser analisada contém em sua essência uma carga extremamente complexa de conceitos, definições e modos de perspectivas distintas.

Em contrapartida, a amizade na história da humanidade, aparece frequentemente em segundo plano no nível de importância afetiva. Habitualmente, os aplausos foram e ainda são destinados, em grande medida, aos contos e histórias românticas, e menos direcionados às histórias que envolvem a amizade.

Pretendo ao longo deste texto vamos analisar o modo como o amor e a amizade se manifestam em nosso meio social, com o objetivo de refletir melhores condutas e modos de vida mais qualitativos entre os dois conceitos.

Também é possível entender os desdobramentos da fusão entre o amor e amizade, que sempre nos foram apresentados como afetos diferentes e até opostos. Pensar em outras maneiras de amar e se relacionar é um ato importante para termos um convívio e uma sociedade mais justa.

O psiquiatra e psicólogo Dr.Flávio Gikovate é uma das fontes para se apoiar quando o tema é Amor vs Amizade", nos pontos que vamos ver agora:

Prazer negativo e prazer positivo

Para entendermos num nível sutil a diferença entre o amor e a amizade, precisamos investigar as duas categorias do prazer.

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Relacionamento

Existe o prazer negativo e o prazer positivo.

O prazer negativo está relacionado a um desconforto precedente que ao ser preenchido ou obter significativa melhora, o organismo se recompõe ao seu ponto de equilibro, de outra maneira, ao ponto zero ou em homeostase.

Prazer positivo, por outro lado, não implica um desconforto antecedente, ou seja, o organismo avança do ponto zero para patamares maiores e positivos, atingindo altos níveis de prazer e que não se faz necessário um desconforto pré-existente.

Vejamos um exemplo de cada uma das categorias:

Quando estamos com fome, nosso corpo encontra-se em desarmonia biológica e portanto necessitamos comer. Alimentados, eliminamos a fome e o nosso corpo volta ao seu ponto de equilíbrio. Este processo de "matar a fome" contém um prazer embutido nele, o prazer negativo.

Portanto, o prazer negativo é aquele que precede um desconforto inicial que ao eliminar este desconforto, o corpo entra em homeostase e vai de um desconforto anterior para o ponto zero; o seu ponto de equilíbrio.

Por outro lado, quando fazemos uma atividade da qual gostamos, não existe um desconforto pré-existente que faz com que busquemos esta atividade, simplesmente a fazemos por prazer, ou se preferir, nela só temos prazer. Este processo que parte do ponto zero do organismo para patamares maiores e melhores do próprio ser, denominamos prazer positivo.

Amor, a priori, é um prazer negativo

Quando nascemos, perdemos o contato direto e intrínseco à nossa mãe.

Saímos de um lugar que aparentemente, até hoje, parece-nos ter sido o melhor lugar onde já estivemos - o útero materno - para um mundo a primeira vista estranho, perigoso e confuso. A sensação de desamparo e vazio nos acompanha até a velhice; sensação esta que iniciou no rompimento da bolsa uterina. Nas palavras do Dr. Flávio Gikovate:

"O amor é um sentimento muito importante porque atenua uma dor que sentimos desde o nascimento: a dor de se sentir desamparado é muito forte! O amor é essencialmente um prazer "negativo": um remédio para um sofrimento que todos experimentamos; e pode se aliar a aspectos positivos."(GIKOVATE, 2016)

Quando atingimos a puberdade, o impulso de preencher este buraco e o vazio aumenta consideravelmente através do desejo sexual. Agora, mais do que nunca, buscamos a "outra metade", na tentativa de substituir - de forma inconsciente - o amor de nossa mãe.

Para Gikovate:

"O amor corresponde a uma busca de completude. Todos nós, desde o início da vida, temos a sensação de sermos incompletos. Parece que só nos sentimos inteiros e em paz quando estamos com o nosso eleito. Assim, é óbvio que nosso primeiro amor é nossa mãe, e todos os outros objetos de amor que venhamos a ter ao longo das nossas vidas serão substitutos dela." (GIKOVATE, 2015)

Amizade, em contrapartida, é prazer positivo

Por sua vez, a amizade não precede uma sensação de vazio e incompletude; diferentemente do amor, a amizade não busca preencher o buraco interno e encontrar portanto sua "cara metade".

"Nossa parte adulta estabelece vínculos respeitosos e ricos em intimidade, que correspondem à amizade. Nossa parte infantil tende a estabelecer um elo único com outra pessoa, em relação à qual passamos a ter expectativas similares àquelas que tínhamos de nossa mãe. Por isso a amizade é um processo muito mais adulto do que aquele que chamamos de amor." (GIKOVATE, 2017)

A amizade acontece quando duas pessoas estabelecem entre si um elo muito forte, influenciado por semelhanças intelectuais, gostos pessoais ou interesses comuns.

"As afinidades intelectuais surgem mais ou menos rapidamente à medida que o Relacionamento se aprofunda e é a principal causa dessa intimidade crescente que caracteriza esse que talvez seja o encontro sentimental mais maduro e mais distante dos elos sentimentais infantis." (GIKOVATE, 2016)

O engraçado é que no amor, ao contrário, as semelhanças não é tratada como maior importância, comprovado nos vários casos em que ambos os cônjuges não tem afinidade de gostos alguma entre si. O que os une são apenas impulsos voltados ao erótico, à sexualidade e que acaba tendo relação, em menor ou maior grau, com a agressividade.

Amor + Amizade: Por que não a fusão entre os dois?

Neste vídeo do Dr. Flávio Gikovate explica esta que seria a relação de maior qualidade, a fusão entre o amor e a amizade. Em sua definição como "+ Amor", referindo a este novo tipo de relacionamento afetivo, Gikovate expõe alguns pontos que em seu entendimento, estão presentes nos relacionamentos amorosos de qualidade:

Cabe-nos, de agora em diante, refletir e colocar em prática os referidos e novos conceitos, para que possamos viver e experienciar outros e novos tipos de relacionamentos; de melhores qualidades.

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