Kori Doty, que se identifica como alguém de Gênero não-binário, ou seja, cuja identidade de gênero não é nem masculina, nem feminina, deu à luz Searyl Atli há 8 meses, na Colúmbia Britânica, Canadá. A experiência de vida de Doty fez com que buscasse não impor uma designação de gênero a sua criança com base em seus genitais e, como resultado, conseguiu que o distrito emitisse um cartão de saúde no qual o item "sexo" consta como "não designado" (em inglês, "unassigned").

O objetivo de Doty, que trabalha com educação comunitária, é permitir que Searyl possa descobrir sua própria identidade de gênero - algo que ocorre ainda na infância - e, então, vivê-la sem imposições sociais. A notícia gerou polêmica por todo o mundo na medida em que se espalhou, principalmente devido à falta de compreensão sobre o tema. Muitas pessoas se equivocam ao achar que, por não querer que o gênero da criança seja designado em seu nascimento, Doty está negando um dado biológico, o que não é verdade.

Quando nascemos, nosso "sexo" é designado unicamente pela aparência de nossos genitais. Sendo assim, fica determinado se o bebê é "menino", "menina" ou, ainda, se está numa posição de não definição, sendo intersexo. O problema é que, uma vez registrado em nossos documentos, esse "sexo" parece inerentemente atrelado a uma identidade de gênero que a sociedade espera que seja linear.

O argumento de Doty é o de que nossa configuração genital não necessariamente determina nosso comportamento, nossas expressões e, principalmente, não define nossa identidade de gênero, a qual, de acordo com pesquisa realizada pela professora e psicóloga Kristina Olson, da Universidade de Washington, as crianças começam a assegurar por volta dos 5 anos de idade.

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LGBT

Impor um gênero baseado na aparência dos genitais se torna um problema quando, contrariando as expectativas sociais, a criança se percebe transgênero. Essa suposta incompatibilidade entre corpo e "cérebro" traz grande sofrimento para as pessoas, algo que, pelo menos em parte, pode ser amenizado por atitudes como a de Doty.

O ocorrido também serve para nos fazer refletir a respeito de como enxergamos a biologia a partir de uma linguagem totalmente imbuída de preceitos ideológicos, de forma que somos incapazes de enxergar "sexo", "gênero" e "sexualidade" como fatores diferentes, não condicionados entre si.

Além do mais, se pretendemos construir uma sociedade baseada na igualdade de gêneros, não deveria haver a necessidade de constar essa informação em documentos. O gênero só permanece sendo um dado oficialmente relevante porque, em nossa sociedade, ainda existe desigualdade entre homens e mulheres.

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