2

Antes de mais nada vamos deixar bem claro uma coisa: este que vos escreve é um apaixonado por carros. Sim! Tanto que até já trabalhei meses como ajudante de oficina automotiva multimarcas. No entanto outra experiência profissional, como agente autônomo de investimentos, sempre me fez refletir sobre um tipo de afirmação que muita gente insiste em usar na hora de falar em trocar ou adquirir um carro. As pessoas simplesmente viram e lançam a pérola: "Fiz um investimento neste carro novo pois o meu outro estava muito rodado" ou coisa do tipo.

Sempre que ouço esta associação na mesma frase - carro e investimento - já me dá aquela urticária ou até vontade de rir.

Mas obviamente sempre mantive a isenção para não ofender o feliz novo proprietário de um veículo dos seus sonhos. Afinal de contas, cada um com sua realidade. Mesmo assim é preciso ter cuidado para não achar que a fantasia é real, como acreditar que os dragões de Game Of Thrones existem ou como o Gollum do Senhor dos Aneis, que sempre acreditou que ficaria com o seu "precious" para sempre.

Primeiro, o que é investimento? Para o mercado financeiro, espera-se que um investimento se comporte da seguinte forma: tem valor inicial "X" que após determinado período (tempo) será "X+y". Ou em português claro: você investe 100 e sai com 120 depois de um período de tempo, por exemplo. Isto é um investimento.

E quando, caros leitores e leitoras, quando você adquire um carro - e aqui estamos falando dos carros comuns, os seminovos, os zero quilometro, o que estão aí no nosso dia a dia - e após um período rodando com este carro você sai com MAIS dinheiro no bolso do que quando começou a usar este veículo?

Fica mais fácil ilustrar o argumento se falarmos de carros "zero", ou novos.

Não é preciso ser um gênio para saber que se você for até uma loja e comprar um carro Zero por R$ 60.000, no dia seguinte ele já não valerá o mesmo valor. Vai valer menos. Isso é o exato oposto de investir. No caso dos usados podem até surgir algumas distorções ou exceções, sobretudo se falarmos de veículos de coleção ou especiais - estes sim podem render bons lucros e serem considerados investimento, mas é assunto para especialistas. Basta consultar qualquer portal online de compra e venda de veículos para constatar a desvalorização dos veículos. Com o passar dos anos então, nem é preciso dizer. Depreciação garantida.

Preciso de um carro?

Então por que tanta gente insiste em dizer que "investiu" no carro ao trocar o que tinha antes, pelo recém chegado, ou mesmo porque não tinha nenhum e passou a ter? Bem pode ser por outra percepção de investimento, que não seja a financeira. Mas aí entramos nos "ganhos intangíveis" por assim dizer. Afinal, você se livra do transporte público, não fica mais na chuva, tem proteção dos dias muito frios, pode dar carona para seus amigos e por aí vai.

Mas em termos financeiros não há nenhum ganho! Os custos aumentam com a aquisição de um carro. Vem o combustível, a manutenção, os impostos, os imprevistos e tudo isso custa dinheiro. Então não adianta. Você gastou com seu carro novo e não "fez um investimento" se o ponto de vista for estritamente financeiro.

Também vale refletir (e por na ponta do lápis e no visor da calculadora) se você vai realmente usar tanto o carro a ponto de valer o investimento, digo, o gasto. Já estão disponíveis por aí, ao toque de uma "googlada" simples, várias receitas e planilhas de custos apontando que manter um carro ao ano sai mais caro do que alugar esporadicamente, ou ainda, usar os novos apps "de carona" que proliferam na web como os Ubers e Cabifys da vida. Pense nisso e fique sempre na dúvida se você está realmente fazendo um investimento, ou só ampliando seu custo de vida.