A consciência coletiva machista sexista foi construída tanto em homens quanto em mulheres. Trata-se basicamente de cultura, que tem como base a religião que enaltece o homem como "o cabeça" da relação, o responsável por botar a comida na mesa enquanto a mulher cuida das crianças e do fogão.

Uso tal afirmação apenas para embasar o sentido deste artigo. Se analisarmos a história, era bem diferente da realidade que hoje vivemos, isto há não muitos anos, onde vemos a história não muito boa para as mulheres, que não tinham direito a estudar, votar, dirigir, trabalhar, escolher com quem casar e por aí se estende a lista.

Sabemos que o entendimento é construído aos poucos e também aos poucos muitos paradigmas como estes vão se dissipando, mas encontrando ainda muita resistência de mentes que se atêm as conveniências do passado para de algum modo tirar proveito disto em benefício próprio.

Refiro-me neste caso aos machistas.

Muito se discute sobre o "extremismo" das feministas em defesa de suas causas e se os movimentos muitas vezes visto como desnecessários ou extrapolados realmente surtem algum efeito ou se deveriam pegar mais leve em suas manifestações. A questão é que tais movimentos contribuíram de fato para a melhoria que hoje vivemos em comparação ao passado e não pretendo me delongar por aqui dizendo se os fins justificaram os meios ou não.

Volto à questão do paradigma sexista machista que impera na sociedade brasileira, em que muitas vezes camuflam o machismo entrelaçando-o ao padrão perfeito familiar onde família feliz é a que o homem põe comida na mesa enquanto a mulher cuida das crianças.

Voltando as conquistas das mulheres, dentre as mais recentes e ainda não podendo ser afirmada como realidade, a igualdade no mercado de trabalho é uma das que mais se debateu nos últimos tempos, onde profissionais bem qualificadas viam-se a receber salários menores apenas por serem mulheres.

Como afirmou o deputado Jair Messias Bolsonaro (PSC-RJ): "Mulher deve ganhar salário menor porque engravida."

Continuando sobre a sociedade machista, não é de se espantar que o referido candidato é o predileto pela maioria para o cargo de presidente do Brasil. Trata-se nitidamente do auto-reconhecimento dos cidadãos e cidadãs às afirmações polêmicas do candidato. Cidadãs, pois, muitas mulheres defendem os pensamentos do dito cujo, auto-reconhecimento porque nada mais conveniente que nos identificarmos com quem tem pensamentos semelhantes aos nossos e deparar-se com o que não se encontra de acordo com isso gera o conflito que hoje convivemos. Coisas comuns da sociedade. Absurdas, mas intrínsecas ao senso comum brasileiro.

Em questão de escala e continuando a usar exemplos que foram expostos na mídia, uso os casos de dois atores globais, numa escala bem extrema nas diferenças, Rodrigo Hilbert e José Mayer. A polêmica do assédio do José Mayer em muito se identifica com este artigo, em carta o ator pedindo desculpas afirma ser fruto de uma geração que aprendeu a ser machista: "Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas.

Não podem. Não são. A única coisa que posso pedir a Susllen [Tonani, figurinista], às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança".

"Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço", completou o ator.

Em contrapartida temos o caso do Rodrigo Hilbert, que quebrou a internet com os inúmeros memes que relatam de modo divertido suas qualidades como homem, pai, esposo, e por aí se vão os adjetivos e elogios que foram dignos de uma campanha: "Alguém pare o Rodrigo Hilbert." Mas, parar por quê? Em post cômico em carta aberta, um internauta cearense pede ao ator: "O senhor poderia, por favor, parar de ser isso tudo? Sério, seja menos."

Uso a dita escala que mostra de modo assombroso o comportamento de dois formadores de opinião para concluir este artigo. O fato de reconhecer e dar as mulheres o devido tratamento e respeito não torna ninguém "mais homem" ou "menos homem", mas o grande impedimento para que paradigmas machistas sejam desfeitos não apenas devem partir dos homens, mas também das mulheres.

Tenho plena consciência do quão impossível e distantes estamos de uma sociedade perfeita, mas, se compararmos a não muitos anos atrás, em muito evoluímos e seria bom se daqui pra frente essa evolução fosse em maior celeridade. Chega de atrelar o bom comportamento em tratamento e a boa educação de alguns para com as mulheres como uma coisa ruim a fama do homem ou como coisa que seja ruim para a família e os "bons costumes".

Chega de usar desculpas, religião, status quo, piadas ou quaisquer atitudes descabidas para camuflar o machismo que impera dentro de nós. Respeito acima de qualquer coisa sempre, não somente às mulheres, mas, acima de tudo, respeito ao próximo, ao ser humano, independente de qual seja sua religião, sexo, cor, orientação sexual, etnia, ou seja, respeito ao ser humano. Somos humanos, demasiadamente humanos, com nossas qualidades e defeitos e evoluir como seres humanos que somos é o essencial para se viver bem.