O open space, termo que define escritórios com poucas barreiras físicas, é o queridinho das empresas de internet e startups de tecnologia. Em seu DNA, encontram-se propostas como a suavização da hierarquia e uma maior interação entre pessoas, criando um ambiente propício para a elaboração de projetos criativos e colaborativos.

Mas, em muitos casos, o que se vê é uma falsa ideia de livre acesso aos agentes em posição de liderança e aos colaboradores de outras áreas - já que o simples fato de estarem a um fácil alcance não significa que eles estejam abertos a ideias ou que dispensem burocracias insanas. Além disso, o ambiente pode ser palco de um pandemônio corporativo de fazer inveja a muitas conversas de boteco.

Coloque uma empresa que trabalhe com metas em um escritório estilo open space e boom: está criada a combinação explosiva que vai mandar para o inferno a sanidade mental dos pobres diabos que realizam tarefas que requerem um mínimo de concentração.

Falo, logo existo

Conversas inapropriadas em termos de volume, frequência e tema, gargalhadas e até cantorias são alguns dos inconvenientes enfrentados diariamente nesse modelo de escritório. E em um ambiente sem paredes ou divisórias, é difícil fugir de algumas situações constrangedoras, como ouvir brigas conjugais que acontecem por telefone, e outras irritantes, como relatos detalhados de colegas que chegam ao trabalho como as crianças que retornam à escola às segundas-feiras: afoitas para contar sobre as aventuras do fim de semana. Algumas pessoas parecem verdadeiras timelines ambulantes, expondo a todo momento onde estiveram, o que comeram, o que estão pensando e como estão se sentindo.

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Sem falar em toda a sorte de áudios de aplicativos de mensagens instantâneas, que envolvem agendamento de horário em salão de beleza, organização da festa de aniversário do filho, pedidos de orçamentos relacionados a obras e reformas etc. Há, inclusive, relatos de funcionários caindo - publicamente e em alto e bom som - no famigerado "gemidão do WhatsApp". Teriam os arquitetos modernistas, lá no início do século 20, defendido o ambiente de trabalho livre de paredes se eles pudessem dar uma espiadinha nos escritórios atuais?

Não que seja um absurdo descontrair de vez em quando ou tratar de assuntos pessoais no trabalho, afinal, não somos máquinas e passamos a maior parte do nosso dia no escritório. Mas seria mais prudente utilizar ambientes para café, salas de descompressão, áreas externas e afins para essas finalidades.

Fones de ouvido: as novas paredes

E o que resta à pessoa que está ali tentando realizar o trabalho para o qual ela é paga (e cobrada) para realizar? Fones de ouvido.

Fones de ouvido são as novas paredes dos escritórios. Irônico, não?

O problema é que, ao contrário das paredes, fones de ouvido podem causar prejuízos à audição, principalmente neste caso, em que elevamos o volume do som para não ouvir os ruídos do ambiente. Segundo a Profa. Dra. Tanit Ganz Sanchez, especialista em saúde do ouvido, é preciso moderar o volume, evitando ultrapassar a metade da potência de cada aparelho, e o tempo de uso, que deve ser limitado a 2 horas seguidas. Outra desvantagem é que o funcionário pode perder informações importantes por estar com fones de ouvido o tempo todo.

E além do volume máximo e do tempo de uso seguro, há outra questão sobre a utilização de fones de ouvido para driblar ruídos externos: o que está sendo ouvido. De acordo com um estudo da Universidade Yamaguchi, no Japão, tanto as conversas inapropriadas dos colegas de trabalho como músicas podem prejudicar a concentração e levar a uma queda da produtividade. E o que as pessoas geralmente reproduzem na tentativa de eliminar conversas paralelas? Músicas, palestras, entrevistas etc.

Nesse sentido, aplicativos como o Coffitivity, que simula o som ambiente de uma cafeteria, podem ser de alguma valia. Segundo uma pesquisa da Universidade de Chicago, esses sons ininteligíveis não só não atrapalham o desempenho como ajudam a preservar o foco e a estimular a criatividade do ouvinte.

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Está claro que o problema não é exatamente a arquitetura, mas sim o comportamento humano, que precisa ser ajustado a esse ambiente para que ele funcione. Em áreas em que o bom senso não prevalece e nem todos os funcionários trabalham com notebooks para poder fugir para salas menos barulhentas, é imprescindível que os líderes identifiquem e tentem reajustar os comportamentos que estiverem ultrapassando os limites e, consequentemente, impedindo um convívio saudável.

De acordo com Adriana Lombardo, especialista em Gestão Estratégica Internacional, Liderança e Inovação, pode-se tomar algumas medidas educativas nesse sentido, tais como a elaboração de um manual de boas práticas, estabelecimento de momentos para pausas e interação, além da criação de pesquisas de clima para que funcionários reportem desconfortos de forma discreta. Ações como essas certamente terão impactos positivos na produtividade [VIDEO] dos colaboradores.