A data de 31 de agosto passou pelo calendário como uma data comum e sem grandes ocorrências. Contudo, há um ano, em 2016, acontecia o desfecho de uma longa e dolorosa jornada arrastada por meses: o impeachment de Dilma Rousseff.

Naquela mesma tarde, subia ao poder o vice-presidente Michel Temer, amparado pelas bases constitucionais e legais que até hoje vigoram na Pátria Nacional.

Em seu discurso, o novo Presidente prometeu combater a crise econômica, garantir a segurança jurídica e ser a representação da estabilidade política. Palavras bonitas soadas como promessa de um alvorecer. O despertar de um dia ensolarado não veio até agora.

O céu perdeu bastante de sua coloração azul, cedendo espaço às nuvens cinzentas e carregadas. Ainda não choveu e não chove.

Este parágrafo faz breves constatações sobre o desempenho de Dilma Rousseff em seu segundo mandato: sem experiência política no âmbito Legislativo – nunca exerceu cargo de deputada ou senadora. Sempre cargos do Poder Executivo. Meteu os pés pelas mãos em relação à manutenção do crescimento econômico e não soube comandar uma vantagem considerada rara e privilegiada numa democracia moderna: a maioria aliada do Congresso.

Sua contraparte chamada Michel Temer possui décadas de experiência legislativa; inclusive como Presidente do Congresso Nacional por mais de uma vez. Advogado de profissão, tem mais intimidade com a oratória e com o púlpito. Mas, isso nem sempre o salva de alguns deslizes em seus pronunciamentos.

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Exemplos não faltam: o aumento do salário mínimo que depois é diminuído, a pouca importância que Temer dá à Opinião pública, a confusão no nome dos países que visita (Noruega e Suécia são vizinhos e não, o mesmo país).

Prometendo tirar o Brasil de um poço de areia movediça, Michel Temer não parece que está puxando a corda para se esforçar. Ao contrário, ele não percebe que debaixo dos seus pés, o poço se expandiu.

Conhecedor de sua impopularidade flagrante nas camadas populares, muitas vezes dá as costas, desconsiderando os clamores básicos dos brasileiros: uma vida digna, um ganha-pão, sair sem medo pelas ruas de suas cidades.

Para ele, a única coisa importante é ter um Congresso ao seu lado para a aprovação de projetos que, visivelmente, desfavorecem a grande massa. Na busca desesperada por investimentos, o atual Presidente se esquece de quem os gera são braços e mãos calejadas; mãos de homens e mulheres.

Ao se pensar em dinheiro, Temer executa uma sucessão de agrados e benesses de perspectiva duvidosa, pois ele imagina que está num grande balcão de negócios: comprando aliados não pelo diálogo e nem pela dialética, mas pela força mercantilista e financeira.

Sua qualidade reside no fato de um jogo que era jogado às escondidas. Agora, ficou escancaradamente aberto para qualquer membro da sociedade brasileira. O Poder Legislativo se tornou uma referência de cifras e arrobas.

Ponto de honra para seu governo, Michel Temer tem comemorado os pequeninos progressos na taxa de desemprego. De performance bem tímida e aquém da rapidez com que uma economia anda a passos de caramujo, veicula-se que há “apenas” 12 milhões de desempregados no Brasil. De acordo com palavras faladas de alguns jornalistas, o desemprego está sendo mascarado. Passa-se uma maquiagem sobre os 23 milhões de pessoas à procura de um “trampo”. Se é verdade ou não, cabe a reflexão: se um presidente quer assegurar a estabilidade política no país, por que há a necessidade de “tampar o sol com a peneira”?

É de se questionar a competência da utilização do dinheiro público, pois nunca se viu tantas propagandas nos meios impressos e televisivos sobre ações feitas pelos vários Ministérios: Agricultura, Integração Nacional, Educação, entre outros. Mas quem se lembra de que a pasta da Cultura foi extinta e reativada?

Enquanto gastam-se quantias indecorosas em banquetes, encontros, simpósios, viagens e o silêncio de peças-chave em investigações, qualquer cidadão médio questiona se toda essa parafernália midiática, não poderia ser revertida àquele velho discurso da necessidade de melhorar o sistema de saúde, a conservação de rodovias e estradas e o aprimoramento da educação. Ele percebe que seu salário precisa ser esticado durante os 30 dias do mês para se livrar de dívidas, para manter um padrão de vida. Muitos perderam isto e todos estão pagando por impostos ao abastecer seus tanques de gasolina.

Implicado e metido em operações escusas, Temer é a figura menos real e verídica para ocupar um cargo tão importante. Haja vista a divisão interna de um de seus grandes apoiadores, o PSDB. Não é novidade que os “tucanos” possuem pontos de desacordo e desentendimentos. Mas, coerentemente, a ala “rebelde” não compactua com o que está escondido debaixo do tapete. A votação na Câmara sobre o pedido de Rodrigo Janot para investigar um presidente suspeito de corrupção passiva deflagrou essa consequência.

Dizem que o Brasil não aguentaria um novo processo para tirar mais um Presidente de seu trono, mas o fato é que a esmagadora maioria não aguenta mais a sucessão repetitiva de uma novela que tem o final previsível. O dinheiro circulado não chega às expectativas das vozes embargadas de uma Nação estranhamente amordaçada sob a sombra de uma democracia totalitária dominada por escândalos, jogos de cena e do afastamento e desinteresse da população. Características detectadas por alguns partidos em sua propaganda, atingidos pela sua própria impotência. E pela prepotência de um maestro que comanda uma orquestra bem desafinada. Não soa bem.