Antes de qualquer debate, faz-se necessário que saibamos nos localizar, identificando o público para o qual dirigimos nossas ideias. Hoje, segundo uma pesquisa realizada pela CNT/MDA, 10,9% dos brasileiros votariam no deputado federal Jair Bolsonaro [VIDEO] (PSC-RJ) à presidência da República em #2018, refletindo uma ofensiva do conservadorismo às pautas da #esquerda que vem ganhando cada vez mais espaço nas mídias alternativas e até nas hegemônicas, por pressão dos movimentos de minorias e minorizados, ressalta-se.

Portanto, saber ler o cenário político atual é imprescindível para deixarmos de dar “murro em ponta de faca” quando o assunto for o inimigo dos trabalhadores, Bolsonaro.

Para nós, militantes de esquerda, é comum sairmos por aí apontando machismo, racismo e LGBTfobia em tudo e em todos, pois a violência que sofremos é velada para quem não é um de nós. Todavia, quem é vítima dessa violência sabe a dimensão que ocupa no meio social e em como nos dilacera cotidianamente.

Sendo, assim, justificável estarmos sempre na defensiva, sem paciência para afirmarmos o óbvio. Mas é importante, e essa é a ideia central deste texto, sabermos flexibilizar e, para além, ampliar nosso discurso para tentarmos alcançar um público que não está familiarizado com o que, para nós, é tão óbvio.

Quantas foram as vezes que, ao debatermos com o eleitorado do Bolsonaro, afirmamos que ele é opressor sem nem ao menos nos questionarmos: será que há uma identificação por parte dos seus eleitores com o ódio às minorias e minorizados propagado pelo mesmo? Hoje, todo e qualquer debate que envolva o direito ao próprio corpo é atribuído à esquerda, porém, quase sempre com uma conotação negativa, dada por um setor significativo da sociedade.

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Pautas mais vulgares, como acesso universal a uma educação e saúde pública de qualidade, são visualizadas, equivocadamente, como sendo uma bandeira até de quem é declaradamente inimigo das mesmas, como Bolsonaro que votou a favor da PEC 55, que congela investimento nas áreas sociais por longos 20 anos.

É perceptível que a esquerda hegemoniza o discurso de minorias sem interseccionalizá-lo com pautas populares. Sendo preciso, e logo, disputar a narrativa de quem realmente é protagonista na luta em defesa de um Estado de bem estar social e, consequentemente, do núcleo familiar (mas em seu conceito moderno, homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher), tão barganhado pelos populistas.

Mostrar a contradição entre o discurso e a prática de Bolsonaro, Aécio Neves, João Doria... É evidenciar que a alternativa real à crise de prioridades (cortar da saúde e educação pública , mas priorizar lucro de banqueiros) em curso no nosso país fica à esquerda, onde pauta-se a reforma tributária e auditoria da dívida pública Cidadã como forma de retirar a dívida da crise econômica de cima das costas dos trabalhadores, permitindo que estes possam fazer outra coisa que não seja vender sua mão de obra; como ter tempo para curtir um cinema com familiares e amigos.

Utilizar-se de um discurso moralista sempre foi, desde o século XVI, tática dos que legislam para os ricos e poderosos. No geral, não passa de uma maneira de distrair o povo enquanto vota-se a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e outros projetos que retiram direitos conquistados ao logo dos anos pelos movimentos sociais. E ainda dá supercerto, o crescimento do Bolsonaro reflete isso.

Não é à toa que o mesmo adora compartilhar vídeos associando a esquerda à libertinagem, a pedofilia etc. Um discurso falso, mas que, infelizmente, consegue ecoar em setores que possuem um baixo grau de instrução, fazendo com que vejam nos setores progressistas, que sempre estiveram na luta para garantir a preservação dos direitos trabalhistas e investimentos nas áreas sociais, como inimigos da classe trabalhadora.

A tarefa que está colocada para nós, militantes de esquerda, é tentar romper com a bolha que nos engloba e identificar os porquês de Bolsonaro estar crescendo nas pesquisas, apesar de ter votado a favor da ampliação da jornada diária de trabalho de 8 para 12 horas; permissão para que empresas demitam funcionários em massa, sem qualquer intermédio jurídico dos sindicatos; fracionamento das férias por até três períodos; redução do horário de descanso do trabalhador de 1 hora para 30 minutos; permissão para que empresas submetam mulheres gestantes a condições insalubres de trabalho...

Será devido aos movimentos sociais antiopressões não flexibilizarem e ampliarem o discurso para que seja entendido por quem não faz parte da classe média?

O que temos hoje, no Brasil , é isso: uma grande “cortina de fumaça” armada por oportunistas, como Bolsonaro, em torno de um debate (opressões) importantíssimo, mas que o povo acredita não ter importância, vendo meramente como “mimimi de esquerdopata”. E, por mais que Bolsonaro tenha sido condenado por injúria e apologia ao estupro, mantem-se a análise de que tais apontamentos são irrelevantes, podendo o mesmo ser chamado de tudo, menos de corrupto (apesar de ter recebido R$ 200 mil de doações da JBS, empresa que está no centro da Operação Lava Jato, nas eleições de 2014).

Ou seja, a aversão à esquerda e o moralismo são tamanhos que defender mulheres, LGBTs e negros de agressões e assassinatos tornou-se supérfluo. É justamente sobre este ponto que devemos nos ater. Sempre haverá quem veja a luta de combate às opressões como irrelevantes pelos mais diversos motivos, sendo algumas dessas opiniões reversíveis, outras, nem tanto.

Logo, mostrar que Bolsonaro sempre esteve ao lado dos ricos, como mostram suas votações no Congresso, é o discurso que pode banhar com água fria até mesmo aqueles e aquelas que não atribuem a devida importância para a luta de minorias e minorizados, mas que sofrem as mazelas da crise econômica, podendo, assim, alterar suas pretensões em votar nesse inimigo do povo pobre e trabalhador para presidir nosso país. #militância