Em 2016, uma nova palavra entrou para o léxico mundial graças ao Dicionário Oxford, editado pela universidade britânica homônima: pós-verdade. O Google registrou mais de 20 milhões de citações da palavra em inglês, 11 milhões em espanhol e nove milhões em português.

Por definição, “pós-verdade” é um adjetivo que “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Em outras palavras, trata-se da indiferença em relação à verdade dos fatos e da soberania de julgamentos e preferências pessoais.

É fato que as redes sociais são grandes responsáveis pela disseminação de notícias mentirosas.

Google e Facebook respondem, respectivamente, por 38% e 43% dos acessos aos 400 maiores sites de notícias do mundo. Somente o Facebook gera seis bilhões de visualizações diárias e um bilhão de visitantes únicos por mês para esses sites. De acordo com um levantamento feito pelo BuzzFeed, entre as notícias mais compartilhadas no Facebook nos dias que antecederam as eleições presidenciais nos Estados Unidos, as falsas superaram as reais em leitura.

Porém, engana-se quem atribui a culpa apenas às redes sociais. A própria mídia, que se autodenomina detentora de credibilidade, vem abandonando os mecanismos jornalísticos de ouvir o outro lado da história e cada vez mais se apoiando em um discurso unilateral, baseado nos próprios interesses, sejam eles políticos, econômicos ou empresariais. A manobra difamatória é a mesma, mudam-se apenas os personagens.

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O caso de Marcus Elias, administrador da holding Laep Investments, é um exemplo claro. O segundo de cinco filhos de um casal de imigrantes libaneses, Elias se formou em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e assumiu cargos de gerência e direção de bancos como Credibanco, Pactual e SRL, no fundo de provavelmente equity TCW-Laep, tendo ganhado respeito de seus pares na condução de reestruturações empresariais. Seu nome tornou-se conhecido do grande público em meados de 2006, quando comprou a operação brasileira da Parmalat, na época afundada em dívidas. Graças a Elias, a empresa não só se recuperou dos prejuízos, como se reergueu de forma admirável.

Não é exagero dizer que, desde então, o empresário é alvo constante de um pequeno, porém influente, grupo. Perseguido por uma série de acusações sem fundamento, não demorou para que também se tornasse vítima de alguns jornalistas, que o atacam insistentemente em busca de audiência. As reportagens misturam trechos de documentos sob segredo de justiça, com falsidades e distorções.

Ou seja, é nítido que o ataque vem de poderosos capazes de defraudar autos judiciais sigilosos. “As acusações sofridas pela Laep foram formuladas sem provas nem indícios por um grupo reduzido de especuladores manipuladores de mercado, agindo em conjunto com um fundo abutre de agiotas internacionais chamado EMSS3/GLG, que desejava quebrar a empresa para ficar com seus ativos”, afirma Halan Finelli, advogado de defesa de Marcus Elias.

Mesmo sem provas, esses poderosos acusaram terem sido admitidas à conversão dívidas e credores inexistentes, empresas de fantasmas ligadas aos administradores, o que seria uma fraude de desvio de dinheiro. Antes mesmo de investigar a procedência das denúncias, a Procuradoria Federal Especializada lotada na CVM (PFE-CVM) ingressou com uma Ação Civil Pública na Justiça Federal, bloqueando todos os bens da Laep e de Elias. Após obter o bloqueio, a CVM instaurou um Inquérito Administrativo para investigar as conversões de dívida e então fazer prova da fraude e dos desvios, que, antes mesmo de qualquer investigação, foram considerados existentes.

Para obter o bloqueio dos bens, a PFE-CVM afirmou em juízo que a Laep tinha dado um golpe de um bilhão no mercado de capitais, afirmando que todas as negociações que levaram a reestruturação do Balanço da Parmalat e demais subsidiárias da Laep foram um golpe. Ignoraram a liquidação de passivos e prejuízos majoritariamente herdados dos Planos de Recuperação Judiciais das empresas investidas. Em seguida, a acusação de golpe passou de R$ 1 bilhão para R$ 5 bilhões. Como? Os poderosos apresentaram ao MPF, em nome da Abrimec, sua associação de fachada, a mesma acusação legitimada pela PFE-CVM, só que inflando a cifra. Mesmo dispondo de todas as ferramentas necessárias para desmascarar as falsas acusações, além dos balanços auditados e de acesso irrestrito à contabilidade da Laep e de suas subsidiárias, a PFE-CVM preferiu ignorá-las.

Em pouco tempo, a campanha difamatória assumiu proporções gigantescas. O endereço da casa de Elias e o nome e telefone de seus parentes e vizinhos foram divulgados na internet, juntamente com uma série de mensagens de incitação à violência – chegaram até a oferecer dinheiro para quem "cortasse a sua cabeça". E mais: uma jornalista do jornal O Tempo foi inúmeras vezes perseguida por publicar matérias alertando para o fato de que a Abrimec estava intencionalmente prejudicando a empresa. “Essa jornalista sofreu ameaças, foi perseguida e ofendida. Não somente ela, mas todos os jornalistas que em algum momento publicaram matérias de contraponto à campanha orquestrada contra a Laep e seus ex-diretores e que apontaram o absurdo da situação de se acusar e de se propagar acusações sem provas. Os poderosos não economizaram dinheiro para atingir seu objetivo, policiando o noticiário, empregando meios sofisticados para distorcer dados e informações e até mesmo corrompendo pessoas e funcionários públicos”, diz Finelli.

Depois que toda a onda de ataques estava orquestrada e a narrativa fictícia vendida como verdade, como seria possível se defender? Por mais que se diga o contrário, nunca houve espaço para o “outro lado” da história.

As investigações, que por lei deveriam durar 90 dias, demoraram quase quatro anos. Após esse longo período, a CVM reconheceu, em juízo, que não houve desvios, daí não ser possível provar que houve desvio de recursos na Laep e suas investidas. Todas as acusações foram rebatidas e provadas falsas perante as autoridades competentes, a CVM e o poder judiciário, mediante a apresentação de provas fáticas e documentais. Todas as acusações foram refutadas por análises e investigações empreendidas pelas áreas técnicas da CVM, algumas das quais já julgadas improcedentes pelo poder judiciário, outras ainda à espera de julgamento.

“O fundo abutre EMSS3/GLG foi condenado em juízo, no Brasil e no Exterior, ter cometido ilegalidades e agido em abuso. A CVM atestou, inclusive emitindo certidão publica, que nunca houve desvio de recursos da Laep para quem quer que seja, muito menos a existência de fantasmas ou laranjas. Todas as pessoas que foram acusadas, sempre sem provas, de serem laranjas ou fantasmas, já foram inocentadas e excluídas das ações judiciais a pedido da própria CVM e do MPF, exatamente porque a acusação era falsa”, explica o advogado.

A denúncia de empresas-fantasmas é um capítulo à parte e também caiu por terra rapidamente. “A Gabapem, por exemplo, é uma empresa que tem cerca de 15 anos e que se dedica a incorporações e a negócios imobiliários. Ela nunca pertenceu ao grupo econômico da Laep nem nunca teve nenhum negócio ou vínculo com a Laep. Assim como outras empresas, inclusive a empresa da família do Presidente da Argentina, a Gabapem teve seu nome e dados obtidos mediante crime de furto e violação de dados privados, de informações e de sigilo legal, perpetrado pelos mesmos inescrupulosos manipuladores que atuam contra ex-diretores da Laep. Depois esses dados defraudados foram adulterados, para fazer parecer teria tais empresas participado das fraudes que falsamente se acusava”, garante Finelli.

E a pergunta que fica é: como devolver a reputação de tantas pessoas prejudicadas por essa manobra? É fundamental lembrar que não só Elias e os demais ex-diretores da Laep foram prejudicados, mas também os mais de quatro mil funcionários que dependiam da empresa e suas respectivas famílias. “Como resultado do golpe, que conta com a participação de agentes públicos, a empresa e suas subsidiárias estão quebrando, milhares de pessoas perderam seus empregos e os ex-diretores e seus familiares foram execrados, tiveram sua reputação destruída e sequer conseguem ter uma conta bancária”, afirma Finelli.

Na guerra por audiência e por poder, o lado mais “fraco” (neste caso, o que detém menos influência) dificilmente consegue vencer. Quem perde não são apenas os envolvidos, mas a sociedade como um todo, que, diariamente, é manipulada pelos disseminadores de rumores e falsos conteúdos na internet. A sedução da notícia prevalece sobre a verdade dos fatos. Resta saber quem será o próximo alvo.