Eram dois policiais com metralhadoras e tudo mais. Ficavam de guarda em frente ao leito do infeliz, que se recuperava de duas lesões causadas por armas de fogo de grosso calibre. Estavam sempre atentos quanto ao fato da vítima, por um descuido, escapulir furtivamente. Era perigoso, pensavam em algemá-lo na cama.

Talvez essa cena será uma triste rotina no nosso país, em especial no Rio de Janeiro. Porém, o drama insuportável que desaba sobre nossas cabeças é que esse personagem citado tem apenas 16 anos. Provavelmente ficou encantado pelo canto da sereia do ganho fácil e do poder imaginário de carregar um AK ou M não importa se 47,16, ou qualquer outro, indo, então, se juntar a multidão de mortos ou de aleijados, somando mais um aos milhares ao ano.

Uma catástrofe, um desastre social, vão empurrando para o precipício gente nova, habilitados pelo vigor e lucidez à vida produtiva, onde o estado e as famílias investem muito, compõem o melhor da nação.

No entanto, a ausência criminosa do Estado [VIDEO] em formular políticas democráticas, com a participação ativa da sociedade, para que o enfrentamento ao tráfico das drogas ilícitas, a ocupação do solo e a educação, setores e compartimentos onde se lidam com os problemas, somados a banalização da violência pela mídia, provocam uma fragmentação do tempo de hoje.

Tempo onde a morte violenta faz parte de um espetáculo sinistro, de um show que necessita ser inserido na ordem total do mundo, da produção e do consumo. Não se revela como consequência, mas parte da regra do jogo, em todos os setores.

Os melhores vídeos do dia

A decisão do menino optando pela truculência faz parte dessa pseudo ética, uma #aparência que substituiu o real em prol da economia em escala. Não é uma vítima, é produto. Vale mais o que ele aparenta, e não o que significa. Ficam assim como naturalmente aceitas a figura do bandido, em especial o morto, da telenovela surrealista, do cidadão de bem com carteirinha. Não há necessidade de contabilizar as perdas. Estas não importam.

O desenho proposto é a da sociedade asséptica, sem mácula e também cordata, propõe obedecer e calar. Ódio ao homem preto, ao candomblé, a macumba, ódio ao comunismo, ao livro. A rebarba eles aparam no sentido estrito da palavra.

Religião, família , propriedade e escambau. Já ouvimos e temos vivido isso por séculos, e sempre deságua na guerra, no inferno, mas até isso é um capítulo do espetáculo que nos é imposto goela abaixo. Afinal, a guerra dá lucro, assim como a cocaína, o crack a maconha LSD e bla bla bla.

Apologia da morte em lugar da vida, uma sociedade autofágica, sem ruins nem bons, um lugar vazio. #vitima