As redes sociais e grupos de debate estão em polvorosa desde que as primeiras críticas à performance artística “La Bête” ganharam as páginas da internet. Um sopro esquentou a brasa e a brasa virou fogueira quando o MBL (Movimento Brasil Livre) entrou numa cruzada contra o coreógrafo carioca Wagner Schwartz e o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo).

Na apresentação [VIDEO], Schwartz deixa seu corpo nu ser manipulado pela audiência, após ele mesmo brincar com um simulacro de animal feito para ser adereço de cena. A performance esteve na abertura da exposição “Brasil em Multiplicação” e baseia-se livremente na produção “Bichos”, de Lygia Clark (1920-1988).

Na série de Lygia Clark, esculturas podem ser manipuladas como brinquedos, com o espectador escolhendo a forma final do objeto, que muda cada vez que outro visitante interage com a peça.

Wagner Schwartz quis fazer o mesmo, mas com uma peça viva a ser tocada: ele mesmo, pelado, “nu com a mão no bolso”. Nenhum problema à vista até que uma criança entrou em cena para tocar e brincar com o corpo desnudo do artista, incentivada pela mães e pai [VIDEO] que ali estavam. O furor já típico das caixas de comentários e postagens raivosas da internet ganharam um enorme fôlego.

As vozes foram ouvidas e agora o Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para avaliar se entrará com uma ação judicial para fechar a exposição do MAM, alegando pedofilia e atentado ao pudor por parte do artista, com conivência dos pais da criança e do próprio museu.

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Há quem diga que tudo isso é mais uma estratégia do MBL para fazer uma cortina de fumaça, abrir uma discussão paralela que desvie o foco das questões políticas que afligem o Brasil e suas instituições. Como o assunto desse texto não é política, não entraremos nesse mérito.

A questão aqui é: onde está o grande erro dessa, agora contestada, forma de arte? O nu artístico sempre foi debatido e criticado. Desde as esculturas de Michelangelo, as pinturas de Da Vinci até os filmes e apresentações teatrais. A contestação por parte dos expositores e dos museus sempre foi a de que arte tem como característica principal provocar o pensamento rebelde e gerar polêmica.

Uma grande verdade, já que quase todo artista vive de ibope, de atrair olhares e nada mais atraente que o sensacionalismo. O erro da exposição não foi o nu em si. Pode-se concluir isso observando que outras performances que envolviam o nu como artifício de linguagem ganharam igual oposição recentemente, mesmo assim não foram tão execradas.

É o caso da apresentação “Macaquinhos”, aquela em que os performers exploram o ânus do colega em uma roda coreográfica buscando “a transformação subjetiva do corpo em seu estado limite, através das ações contínuas de paquerar, cutucar, assoprar, procurar e tocar um o rabo do outro”, descrição dada pelos próprios criadores.

“Macaquinhos” gerou certo alarde, mas não tanto a ponto de sair de cena antes do tempo previsto, como foi o caso da recente exposição “Queermuseu”, expulsa de Porto Alegre e proibida em Belo Horizonte, com quadros retratando crianças em um despertar para a homossexualidade.

Aqui está o ponto chave: quando crianças apareceram nas obras expostas, a coisa ficou séria. O nu em si não é o problema. Questões de gênero também não o são. O problema é a erotização precoce. Há quem possa alegar que não foi o caso em “La Bête”, já que crianças estão expostas diuturnamente a exibições de funk, músicas de Anitta e companhia, comerciais e reportagens de TV com excessos e novelas com cenas simuladas de sexo hétero e homossexual.

Também se alega que não houve pedofilia, pois, a criança eram supervisionada por adultos responsáveis e tocou apenas nos pés, pernas e cabeça do artista. Se houvesse conotação sexual, era de se esperar uma ereção por parte do homem objeto, coisa que também não ocorreu. No entanto, tudo isso foge da questão principal. Havia um órgão genital masculino real e vivo exposto e disponível para manipulação para crianças (que não o fizeram, destaco).

Ora, é ponto pacífico para a maioria dos pais e educadores que na idade pré-adolescente uma criança só deveria conhecer o que é uma genitália ao estudar biologia em livro escolar e em aulas de educação sexual ou até mesmo em uma exposição científica sobre o tema. Manifestação com nu artístico não é lugar de criança.

Existe idade certa para cada etapa do aprendizado e se os pais consideram que nessa idade os filhos já podem ver os detalhes de um pênis, isso deveria ser feito em lugar diverso ao de uma apresentação ao vivo. O grande erro não é o nu, insisto em repetir. O erro se encerra no fato de que nem o artista, nem o museu estabeleceram idade mínima para participar do evento.

Caberia aos pais fazer autocensura? Talvez, já que cabe a eles educar os próprios filhos e parte da educação é envolvida pela transferência dos valores socioculturais aos descendentes. Mas há limites que são explicitamente estabelecidos pelas leis, mesmo sendo as normas jurídicas carregadas de ideologia religiosa e moral.

Pode-se discutir isso a qualquer momento, alegando que leis não devem tolher a educação, a cultura e arte. Não deixa de ser um fato. Questionar também é um ato de liberdade, mas transgredir é um ato amoral, tanto quando é expor crianças às gônadas de um adulto.

Que distinção entre um ato artístico e um ato de perversão sexual uma criança fará se for comum para ela ver um adulto nu aqui e ali? Quanto tempo de abuso haverá até que ela perceba que o suposto pedófilo foi longe demais? É para esses casos que existem as leis, por mais imperfeitas que sejam. Contestar essas leis e o status quo sempre será uma prerrogativa da arte, mas há fronteiras que ninguém deveria ultrapassar, qualquer que seja sua justificativa.