A mais recente polêmica envolvendo artistas e conservadores diz respeito a uma performance realizada pelo bailarino e coreógrafo Wagner Schwartz, na terça-feira (26), durante o lançamento da 35ª edição do Panorama da #Arte Brasileira, tradicional exposição organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

Nesse sábado (30), cerca de 20 manifestantes se reuniram para protestar contra a performance na entrada do MAM, acusando o museu de incentivar a #Pedofilia e "orgia com crianças", conforme diz uma das mulheres em vídeo. A assessora de imprensa do museu, Roberta Montanari, recebeu um soco e foi chamada de "pedófila".

Outros funcionários também foram agredidos verbal e fisicamente, na tentativa de impedir que os manifestantes entrassem no local.

A performance "La Bête" (em português, "O Bicho") é inspirada em uma série de esculturas realizadas por Lygia Clark, intitulada "Bichos", de 1960, as quais consistem de origamis com os quais o público é levado a interagir. A ideia da artista plástica está pautada em representar obras de arte como organismos vivos, permitindo a integração com o espectador.

Dessa forma, Schwartz efetua uma transposição para sua própria área de atuação, a dança, fazendo de seu corpo o organismo vivo disposto para a interação. A metáfora é clara: o performer é, ele mesmo, o bicho. Uma vez que bichos não se cobrem, a não ser por ação humana, Schwartz se apresenta nu, o que o torno vulnerável aos atos das pessoas.

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Aqui, é importante estabelecermos uma outra coisa: nem mesmo especialistas e estudiosos da arte têm uma definição precisa para o que ela é. Portanto, é pretensioso demais que pessoas leigas queiram impor à performance se ela é ou não arte com base em preceitos morais. Outro fato é que, quando concebem suas apresentações, artistas pensam no significado de cada elemento, inclusive na nudez.

Uma filmagem de parte da apresentação de Schwartz em que mãe e filha aparecem tocando na ponta dos dedos e, depois, nos pés do artista-bicho, foi alvo de polêmica após ser compartilhada por conservadores, que mais uma vez tiveram seu coro reforçado pelo MBL [VIDEO] (Movimento Brasil Livre), apontando para o absurdo de uma garota estar exposta à nudez do indivíduo. Curiosamente, ignora-se que crianças estejam expostas à nudez o tempo todo através da mídia.

Em resposta, o MAM emitiu uma nota esclarecendo que a performance foi restrita a convidados que estavam presentes no dia da abertura do Panorama e que o conteúdo - a nudez - estava devidamente anunciado na entrada da sala.

A lei de restrição por faixa etária não se aplica a museus ou exposições de arte (aliás, algo que foi defendido por políticos e militantes de direita), que podem apenas avisar sobre o conteúdo [VIDEO] (como fez o MAM) e sugerir a idade adequada para que a pessoa visite o local. De fato, em museus pelo mundo todo não se encontra restrições para a entrada de crianças, que podem visitar os estabelecimentos livremente, desde que acompanhadas pelos pais ou responsáveis.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, conforme os artigos 240 e 241, é crime a produção, reprodução ou registro "por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente [...]", bem como "vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente".

Uma vez que no vídeo não é possível comprovar nenhuma exposição da criança a sexo explícito ou pornografia, mas apenas à nudez do artista, não há crime em relação ao que ocorreu durante a apresentação de Schwartz. Se a escolha da mãe de permitir que sua filha assista à performance é aceitável, trata-se de uma questão pessoal.

A mãe em questão deve saber que sua filha tem capacidade de encarar o acontecimento artístico e, principalmente, que esse fato pontual não significa maior vulnerabilidade à ação de pedófilos. Afinal, mesmo sendo muito nova, ela pode muito bem entender a diferença entre ser forçada a um ato libidinoso e a interação com um artista diante de um público considerável, com sua mãe a seu lado e sem conotação de erotismo.

Estatisticamente falando, um homem que seja conhecido da criança e de sua família (ou, ainda, que faça parte dela), mantendo relações próximas e demonstrando carinho com abraços e beijos representa mais risco que o artista desconhecido que se apresenta nu diante de várias pessoas. No primeiro caso, em que o toque e a proximidade são permitidos e incentivados, é mais fácil que o sujeito se aproveite da criança sem que haja desconfiança. No segundo caso, a preocupação com a supervisão é bem maior, por motivos óbvios.

Em suma, enquanto militantes raivosos fazem alarde contra o que é exibido publicamente, desviam sua atenção para o real perigo que está na esfera privada, íntima, de cada um. #Manifestação