Todo aluno de jornalismo ou comunicação social possui uma disciplina relacionada à ética profissional. Algumas faculdades, inclusive, propõem a leitura de livros ficcionais sobre o tema e exibem filmes para provocar as discussões em sala de aula ou gerar propostas para trabalhos extraclasse. Uma película muito referenciada pelos professores de jornalismo é "A Montanha dos Sete Abutres", longa-metragem de 1951.

Na obra, Kirk Douglas interpreta o papel do repórter Chuck Tatum, um especialista em encontrar histórias de interesse humano. O ambicioso Tatum descobre em uma tragédia envolvendo mineiros a reportagem perfeita para aumentar seus ganhos e ganhar uma desejada promoção.

Ele e seus inescrupulosos editores passam a fazer de tudo para que a tragédia se prolongue ao máximo, já que as vendas do jornal no qual trabalham dispararam com a notícia.

Em algum momento isso vai longe demais e Tatum começa a questionar os limites dessa tática voraz de aumentar a tiragem do periódico. Esse belo filme inspirou outras várias obras para o cinema, entre elas: "O Quarto Poder", de 1997, com John Travolta e Dustin Hoffman, e ainda "O Abutre", de 2014, com Jake Gyllenhall. O objetivo é sempre o mesmo: discutir os limites do jornalismo sensacionalista.

Não há sequer um estudante ou profissional de jornalismo que deixe de tecer elogios sobre esses filmes. O grande problema é que a lição de moral tem ficado presa dentro das salas de aula ou restrita às conversas com os amigos.

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No coração das redações a lógica é a de Chuck Tatum: causar sensação e polêmica para receber promoção e destaque.

Não se trata de culpa apenas do jornalista. A maioria só quer manter o emprego atual e não tem autoridade para definir as próprias pautas e os rumos que elas tomam. O sistema que os envolve é que dita as normas. A lógica do lucro é o que importa para as grandes empresas de mídia. Essa introdução é importante e necessária para o âmago do que se pretende tratar como assunto principal. Como se relacionam as seguintes tragédias recentes? A saber: o atentado a tiros em Las Vegas (1º de outubro de 2017), com 59 mortos; o ataque incendiário à creche Gente Inocente [VIDEO] (5 de outubro de 2017), em Janaúba (MG), com 11 mortos e o ataque a tiros numa escola de Goiânia [VIDEO] (20 de outubro de 2017), com dois mortos.

A relação entre esses crimes é a própria mídia e o jornalismo feito a todo custo. Estou afirmando que esses atos são provocados pela imprensa? De forma alguma. Digo apenas que eles são inspirados em fatos reais e a culpa da mídia reside na forma de difundir esses fatos.

Sobram pistas para associar os eventos à sua massiva exploração noticiosa, mas é cabal a declaração do garoto de 14 anos que é o autor do ataque em Goiânia. Ele expôs ao delegado do caso que se inspirou nos massacres da escola do #realengo (7 de abril de 2011), com 13 mortos e em Columbine, Estados Unidos (20 de abril de 1999) que deixou 15 mortos.

Animais. Simples animais

Os limites morais do ser humano foram ultrapassados em todas essas tragédias e isso não aconteceu de repente, mas foi cultivado. É fato que no limite o ser humano age de forma inesperada. No limite calculado da depressão ou da insanidade, quando já há planos para suicídio ou vingança, sair dessa vida deixando sua mensagem de despedida com um ato de grande repercussão é garantir que seu grito de indignação seja ouvido.

É comum ouvir dos estudiosos da natureza que um animal acuado e assustado primeiro tenta fugir e se esconder e que um ataque só ocorre quando o bicho se sente ameaçado. Nesse momento, ele se torna uma fera no real sentido da palavra. Isso acontece tanto com predadores, como serpentes e felinos, quanto com presas, como roedores e ruminantes.

Nós, humanos, compartilhamos essa natureza animal com os seres selvagens, ainda que isso não seja admitido racionalmente pela maioria. Há um momento em que todos nos sentimos acuados e ameaçados. Todos nós somos vítimas potenciais de angústias e depressões. Em momentos limítrofes, a razão e a moral se abalam e o instinto assume o comando. Quando o pensamento racional cessa de apresentar soluções, as ideias surgem de outras fontes e elas estão a sua disposição no jornal da noite ou numa busca pela internet.

E isso vai continuar assim, sem uma reavaliação de como um fato trágico serve de inspiração para o próximo? Há um acordo silencioso entre empresas de comunicação para não divulgar mortes por suicídio. O propósito é evitar que outras pessoas em condições mentais semelhantes à do suicida sejam inspiradas a buscar o autoextermínio como solução final, saltando de prédios, de pontes, se envenenando ou praticando qualquer outra atitude irresponsável.

Já não seria esse o momento para um outro grande acordo para conter a divulgação massiva de atentados e ataques como os que citamos? É mais que conhecido que um ato terrorista não se limita ao local onde foi executado, mas busca na mídia sua repercussão mundial. Não seria o momento para acabar com a publicidade gratuita dessas tragédias que claramente servem de combustível para mais tragédias similares ou maiores?

A indústria do jornalismo se construiu explorando o fato de que o ser humano se sente atraído por crimes e catástrofes. Essa é a fonte de renda da mídia e seria infantil pensar que os donos dessa galinha de ouro queiram matá-la. O que se faz para aplacar as vozes críticas desse método jornalístico é tentar contornar o fato principal com análises, cobranças às autoridades, responsabilização de pais e educadores, matérias sobre como evitar o bullying, como perceber os sinais de depressão, como controlar o acesso às armas.

Tudo isso é importante, mas não tem o apelo visual de um corpo ensanguentado no chão, de câmeras de segurança mostrando tiros e gritos e de closes em mães e pais chorando em busca de respostas. O grande acordo que precisamos é o de não divulgar os detalhes dessas ações como etapas para o plano seguinte, maior e mais violento. Plano que o próximo adulto em desespero financeiro, o próximo jovem achacado por piadas maldosas e o próximo solitário em depressão vai seguir para deixar seu último apelo por atenção. #Creche #goiania