A drag queen e apresentadora Femmenino, personagem criada pelo artista Nino de Barros, visitou, em função do Dia das Crianças, o Colégio de Aplicação João XXIII, vinculado à Universidade Federal de Juiz de Fora, para gravação de um vídeo publicado na quarta-feira passada (11) na página oficial da UFJF. O vídeo é uma edição do programa "Na Hora do Lanche", produzido pela equipe de comunicação da universidade e exibido mensalmente.

No vídeo, Femmenino comenta que "coisa de menino e de menina não existe" e um garotinho reforça que "isso é preconceito", ao que a drag comenta "toma, família brasileira". O que vemos é que o garoto concordou com o posicionamento da apresentadora, algo que gerou indignação entre conservadores e religiosos.

O conselheiro tutelar Abraão Fernandes protocolou um pedido de análise pelo Ministério Público Federal, alegando desrespeito ao Plano Municipal de Educação e ao Estatuto da Criança e do Adolescente, uma vez que a drag queen "deixa transparecer a questão da ideologia de Gênero", nas palavras de Fernandes e foi de encontro ao que os pais ensinam em suas casas.

O vídeo foi editado e compartilhado também pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que chamou o episódio de "canalhice" com as crianças.

Desde então, a página de Femmenino no Facebook, bem como a da UFJF, tem recebido uma série de comentários depreciativos e o artista chegou a ser ameaçado. Em resposta a comentários no vídeo, a UFJF escreveu que a discussão de ideias é bem-vinda, mas que declarações injuriosas como "tem de fuzilar" ou "poderia jogar gasolina no próprio corpo" seriam registradas e excluídas, por configurarem clara manifestação de ódio.

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A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Juiz de Fora e o Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino de Juiz de Fora (Sintufejuf) publicaram notas manifestando apoio à UFJF, ao Colégio João XXIII e ao artista Nino de Barros.

Nesta terça-feira (17), às 17h30, serão votadas na Câmara Municipal de Juiz de Fora duas moções de repúdio contra a UFJF e o Colégio João XXIII, apresentadas por André Mariano, do PSC, e José Fiorilo, do PTC, vereadores que se opõem à famigerada ideologia de gênero. Esses mesmos políticos foram autores de emendas que restringiram, no Plano Municipal de Educação (PME), o conceito de diversidade, de forma a reduzir o debate e inviabilizar que questões relativas a gênero e sexualidade sejam abordadas nas escolas municipais.

A repercussão do caso vem na esteira de uma verdadeira política do medo cultuada para transformar estudos sobre gênero e sexualidade em inimigos da família tradicional. Com base em uma estratégia que dissemina o pânico e a histeria, conservadores e religiosos têm conseguido voltar às atenções da população para um tema que deveria ser abordado com sensatez no âmbito educacional por indivíduos capacitados e especialistas.

Tratar de gênero e de sexualidade nas escolas significa demonstrar, para os alunos, como é importante refletir criticamente sobre o que é colocado como "natural", mas que, na verdade, não tem embasamento biológico - e é a isso que nos referimos quando falamos em gênero ou, como acertadamente apontou a drag queen a "coisas de menino e de menina". Não existe ciência que comprove, por exemplo, que meninas devam gostar de rosa, usar saias e brincar com panelinhas, nem que meninos devam gostar de azul, usar bonés e jogar futebol.

Além do mais, a insistência na separação entre o que é "de menino" e o que é "de menina" contribui para que aquelas crianças que apresentem gostos e um comportamento fora dos padrões sejam discriminadas e vítimas de bullying. Portanto, enquanto acreditarmos na falsa existência de uma ideologia de gênero perversa, não será possível que as crianças fiquem em paz com quem elas são, nem que possam expor suas personalidades sem temer represálias.