O Eu entra no quarto, vai diretamente para a cama. Ele está só. Ele se sente livre. E repensa tudo o que poderia ter feito, tudo o que poderia fazer se não fossem os outros. Sim, ele diz, os outros são um inferno, como seria bom se eu pudesse eliminá-los. E ali deitado no escuro ele devaneia com a destruição do governo, dos concorrentes, dos inimigos e de todos os que considera obstáculos para seus projetos.

Ele se levanta e começa a dançar no escuro, mas tem de cantarolar sua própria música, pois não há ninguém para tocar para ele. E tem de dançar consigo mesmo, pois não tem um par.

O Eu sozinho se cansa e abre a janela.

Sua morada fica lá no alto e de lá ele vê carros, ônibus, caminhões nas avenidas e ruas. Vê gente, muita gente transitando nos passeios, como formigas.

De repente ele se percebe como o centro do mundo, como se tudo girasse em torno de si. Ele fecha os olhos, respira fundo, abre os braços e grita: “Eu sou o centro do mundo! ”

O que ele não percebe é que cada um dos bilhões de indivíduos espalhados pelo planeta também sente a mesma coisa: cada um é um centro de tudo, e um mundo com bilhões de centros é o mesmo que não ter centro nenhum. Ser o centro do mundo é um fenômeno biológico comum a todos, não confere a ninguém poder especial.

Mas alguns indivíduos não pensam assim, eles se sentem portadores de um algo mais, sentem-se grandes, fortes, poderosos. E, como centros do mundo, merecedores de honrarias, privilégios.

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Sentem que estão aqui para serem servidos e adorados pela massa, para eles, sem valor que povoa o planeta.

Porém, algo está acontecendo com nosso Eu sozinho. Ele tenta continuar sua dança, mas erra os passos, ele tenta cantarolar, mas desafina. Ele, de repente, se sente só, verdadeiramente só. Tenta compreender, se desespera. Sente vontade de destruir tudo ou de se destruir. Senta-se no chão e chora. Fica imóvel no meio do quarto.

De algum lugar lá fora entra no quarto vozes. Ele ergue a cabeça. São vozes variadas, há risos, cantoria, frases alegres.

E o Eu sozinho sente vontade de abraçar, de ouvir, de falar...

Então ele sai do quarto à procura do outro. Descobre, num lance, que o outro, apesar de ser seu limite, é também sua possibilidade maior. Percebe, enfim, que cada um de nós é um centro do mundo, e que isso confere a cada um apenas um ponto de vista. Um ponto de vista a partir do qual caminhar, criar, conviver.

Conviver, sim, pois, na verdade, não vivemos simplesmente, mas convivemos. E essa é nossa maior riqueza. #Atitudes #Ano Novo