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Há 48 anos morreu um dos maiores ícones da história brasileira, Carlos marighella, poeta, escritor, político, guerrilheiro e grande apreciador de caipirinha. Considerado inimigo número 1 da Ditadura, foi perseguido pelo governo, preso e torturado diversas vezes, mas nunca deixou de lado o sonho de igualdade em um país que até hoje é muito desigual. Na época, o país estava passando por diversas mudanças e caminhando para uma ditadura autoritária e nacionalista. Marighella e muitos morreram para que vivêssemos em um país democrático e com liberdade de expressão.

Carlos Marighella nasceu em dezembro de 1911, sendo um dos sete filhos de Reginaldo Marighella, um operário imigrante da Itália, e de Maria Rita do Nascimento, filha de escravos trazidos em navios negreiros do Sudão (negros hauçás).

Com 20 anos ingressou no curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia, onde se envolveu com os movimentos estudantis de Salvador, se tornando um militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Foi preso pela primeira vez em 1932, durante um ato de estudantes contra o presidente Getúlio Vargas. Dada uma ordem pelo governador Juracy Magalhães, mais de 500 estudantes que protestavam e criticavam o governo foram presos. Marighella foi detido por um poema que fez contra o governo. Depois de alguns meses na prisão, foi solto e voltou a ajudar os movimentos estudantis na Bahia. Em 1935, Marighella abandonou seus estudos e se deslocou para o Rio de Janeiro.

Marighella chegou ao Rio de Janeiro para ajudar na organização do partido que vinha do recente fracasso na ‘‘revolta comunista de 35’’, uma tentativa de golpe contra o presidente Vargas.

Militantes do PCB tinha uma ideia comunista de revolução nacional popular contra o imperialismo, autoritarismo e oligarquias que vinham de fortes influências do fascismo italiano de Mussolini e do governo de Franklin Roosevelt nos Estados Unidos, que tinha até uma boa relação com o governo nacional na época.

Depois da tentativa de golpe em 1935, o PCB teve seu registro caçado. Vivendo clandestinamente, em 1º de maio de 1936, Marighella foi encarcerado por um ano e dois meses, sendo submetido a 23 dias de tortura. Segundo seu documentário mais recente, produzido em 2012, os algozes começavam com pontapés e socos, depois surras de chicotes da cabeça a sola dos pés e, por fim, queimando o corpo todo seu corpo com bitucas de cigarro acesas e alfinete de gravata nas unhas.

Após a proclamação do Estado Novo em 1937, no governo Getúlio Vargas ainda, Marighella saiu da prisão, mas, de forma clandestina, mantinha-se em seu partido, o PCB. Recebeu a missão de ir para São Paulo e aparar as arestas dos dirigentes do estado com o comitê central do partido.

Virou uma grande referência para os comunistas paulistas pelos seus ideais e seus discursos, mas foi impedido em 1939, sendo recapturado, torturado e ficou na prisão durante seis anos entre os presídios de Fernando de Noronha, em Pernambuco, e Ilha Grande, no Rio Grande do Norte, que se tornou um deposito de políticos durante o Estado Novo.

Solto em abril de 1945, com o fim do Estado Novo próximo e com eleições gerais convocadas, os políticos e seus partidos foram novamente legalizados. O PCB lançou políticos em todos os cantos do Brasil. Marighella se candidatou a deputado federal, sendo um dos mais votados naquela eleição. Retornou ao Rio de Janeiro com seu espaço no Parlamento, junto com outros 14 deputados aliados. Mas, naquele mesmo ano, ele perdeu seu mandato por questões da nova proscrição do PCB, assim voltando à clandestinidade.

Em 1947, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) o registro do PCB foi novamente cassado e o partido deixou de ser legal, além de serem anulados os mandatos dos 14 deputados. Vivendo mais uma vez como clandestino, Marighella teria que cumprir sua missão dada pelo partido para ele fazer em São Paulo. Ocupou cargo na direção partidária e começou a movimentar e incentivar as greves em São Paulo, tento bastante resultado, havendo uma série de greves nas indústrias têxtil, gráficas, marcenarias e metalúrgicos, sendo todas vitoriosas.

No começo da década de 1950, o Comitê Central Comunista chinês convidou Marighella para uma estadia entre os anos de 1953-1954 e conhecer de perto o modelo de revolução chinesa. Em 1º de abril de 1964, se instaurou o regime militar que derrubou o governo do presidente eleito democraticamente João Goulart, o ‘‘Jango’’. No mesmo ano, no Rio de Janeiro, Marighella foi perseguido, baleado e preso pelos policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) dentro de um cinema.

Por decisão judicial, Marighella foi solto um ano depois, em 1965. Por consequências da repressão militar [VIDEO]e do golpe, Marighella optou pela luta armada contra a ditadura e começou escrever uma de suas mais famosas obras, ‘‘A Crise Brasileira’’, que foi lançada no ano seguinte, em 1966. O livro analisa a conjuntura nacional, classes brasileiras e traz críticas a seu partido, o PCB, que se resguardou de atividades consequentes do golpe militar. Segundo Marighella, o partido estava iludido em um processo eleitoral limpo e ao mesmo tempo refratário ao divórcio da burguesia.

Em dezembro do mesmo ano, Marighella renunciou ao seu cargo no PCB e viajou para Cuba para participar do Olas (Organização Latino-Americano de Solidariedade), sendo que seu antigo partido era contra a ida dele. Aproveitando a estadia em Havana e com o conhecimento que estava adquirindo de estratégias da revolução cubana que estavam sendo compartilhadas por Che e Fidel e com sua experiência na revolução chinesa, Marighella redigiu ‘‘Algumas Questões Sobre as Guerrilhas no Brasil’’, uma homenagem ao nome e legado de Che Guevara, tornado público pelo Jornal do Brasil, em 1968.

Com a saída de Marighella do PCB, ele e outros membros descontentes com a posição do partido se juntam e fundam uma organização revolucionaria, ALN (Ação Libertadora Nacional). Com um ideal objetivo e imediato de luta armada contra a ditadura e a instalação de um regime socialista no Brasil, bem semelhante à revolução cubana. O grupo realizava assaltos a bancos, trens, mercados e sequestro de diplomatas, como, por exemplo, o embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, que, com o sequestro conseguiram libertar 15 políticos presos pela ditadura.

Com anos de perseguição a Marighella, uma ação do DOPS e do delegado Sérgio Paranhos Fleury, conseguiram descobrir uma conexão de três frades dominicanos com Marighella. Então, os torturaram até marcarem um encontro com ele para fazerem uma emboscada e o assassinarem. Na noite de 4 de novembro de 1969, às 20h, na Alameda Casa Branca, no Centro de São Paulo, Marighella foi ao encontro com os frades. Sentou-se no banco de trás do carro dos religiosos e, logo em seguida, por ordens os frades, saem do carro e deitam. Nessa hora, agentes do DOPS atiram em direção ao automóvel, metralham Marighella e outras três pessoas que estavam na rua no momento.

Em 1996, o Ministério da Justiça reconheceu a perseguição e a responsabilidade do estado pela sua morte e ofereceu pensão vitalícia do governo a sua mulher, Clara Charf.