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Que país é esse em que o executivo propõe a volta do trabalho escravo e o prefeito da maior cidade do país lança uma ração destinada aos mais pobres?

O decreto que legalizaria, na prática, o trabalho escravo, felizmente, foi derrubado pela Justiça. Mesmo assim, o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, disse que o manteria e faria alguns ajustes. É inútil tentar sensibilizar quem tomou o governo de assalto. Temos de partir para a sensibilização da sociedade, só ela é capaz de reverter tanta insanidade.

Insanidade como a do prefeito criador da ração para pobres. Em 1729, o escritor irlandês Jonathan Swift, autor do clássico “As Viagens de Gulliver”, lançou o panfleto satírico “Modesta proposta para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público”.

O tom irônico presente em todo o texto já aparece no título.

Para resolver o problema da fome e das crianças em estado de miséria na Irlanda da época, Swift propõe, satiricamente, claro, que parte delas seja separada para reprodução, e uma maior parte destinada ao abate e oferecida aos ricos da Irlanda. O autor propõe, inclusive, exportar parte dessa carne. O panfleto está disponível (PDF) em vários sites, é só digitar “Uma modesta proposta” num buscador.

Em 1973, foi lançado o filme “Soylent Green (No Mundo de 2020)”. A história se passa em Nova Iorque, ano 2020. A cidade tem 40 milhões de habitantes, em sua maioria pobres e desempregados, e para alimentá-los foi crido um biscoito verde, supostamente feito de algas, o soylent green do título, mas que, na verdade era feito com parte desses pobres e desempregados recolhidos das ruas.

Somente os ricos comiam carnes, verduras, frutas, que eram alimentos raros e caríssimos. O filme, dirigido por Richard Fleischer, é baseado no romance distópico "Make Room! Make Room!", de Harry Harrison, escritor americano. O filme está disponível no YouTube.

A famigerada ração e a tentativa de abolição da abolição da escravatura revelam o desprezo que os ricos sentem pelos trabalhadores e pobres. Afinal, a desigualdade é sempre muito lucrativa para eles.

Os eleitores precisam perceber que os políticos eleitos são seus representantes. Deveriam, como tal, governar e legislar a favor do povo e não contra ele. Portanto, é preciso ficar atento e conhecer os candidatos e escolher aqueles que realmente defendam os interesses da maioria, ao contrário do acontece realmente.

Para finalizar, pedindo licença a Carlos Drummond de Andrade, uns modestos versinhos:

Mundo, mundo,

Vasto mundo,

Se voltasse a escravidão,

Seríamos tratados com ração.